Quatro anos depois...

05/02/2017

Naquele fim de tarde, cheguei ao Núcleo de Mediação para meu plantão semanal às sextas feiras. Cumprimentei o time da Secretaria e fui ao encontro dos três ou quatro alunos, que pareciam ansiosos por participar de sua primeira mediação em caso real.  

 

Um dos membros da equipe de Triagem chamou a minha atenção para o fato de que a senhora que procurou a Núcleo, a qual vamos chamar de Dona Maria, havia pedido para não estar com o marido, o qual apelidaremos de Seu João, nas reuniões de mediação. 

 

Acolhendo o pedido, combinei com os alunos observadores da prática que receberíamos um de cada vez, em reuniões privadas. 

 

Dona Maria nos contou tim tim por tim tim como tudo aconteceu: seu casamento com Seu João datava de algumas décadas, eles se davam até muito bem, haviam tido quatro filhos e sete netos. 

 

O marido tinha um papel muito importante na família: fazia as vezes de referência masculina para os netos, cujos pais pouco estavam presentes. Também era uma boa companhia para Dona Maria. O casal tinha enfrentado 'poucas e boas' e conquistado muita coisa ao longo da vida em comum. 

 

No entanto, tudo havia mudado. Quatro anos antes, um comentário correu o bairro em que viviam: Seu João tinha se envolvido com a nova vizinha. 

 

Dona Maria nos explicou que era muito religiosa e que, portanto, sequer havia cogitado a separação. Simplesmente deixou de se dirigir a Seu João desde que soube da relação extraconjugal. Nem ela, nem os filhos, menos ainda os netos consideravam mais a presença dele.

 

Procurou o Núcleo porque queria que ele aumentasse a contribuição mensal para o custeio das despesas da casa. Desde que pararam de se falar, o valor permanecera o mesmo. 

 

Tratei de receber Seu João e pedir a ele para me contar quando havia conhecido Dona Maria, como tinha sido a vida deles ao longo das décadas de união, o que tinha acontecido para estarem ali. 

 

Seu João nos disse que Dona Maria tinha sido uma parceira e tanto. Era muito guerreira e ótima mãe. Infelizmente acreditava em fofocas e dava crédito demais às amigas que não tinham mais nada o que fazer, a não ser falar mal dos outros. 

 

Contou que de fato uma moradora nova da vizinhança havia lhe chamado a atenção, quatro anos antes. Não ia negar que tinha dado umas olhadas pra ela. Mas não passara disso. O resto tinha sido pura intriga. 

 

Quando Dona Maria parou de se dirigir a ele, lamentou mas respeitou. Gostava dela - até hoje! - e não quis se indispor. Achava que aquela raiva sem propósito iria passar, mais cedo ou mais tarde. 

 

Estava de acordo em aumentar o valor da contribuição do mês. Só não o havia feito antes porque, como ninguém falava com ele, não soube da necessidade. 

 

Aliás, há quatro anos Dona Maria não lavava nem sua louça tampouco sua roupa... Ele comia o que dava conta de preparar... Os netos, que sempre foram super apegados a ele, nem lhe voltavam o olhar... Sentia-se um verdadeiro fantasma, vagando pelos cantos. 

 

De volta com Dona Maria, disse a ela que a conversa com Seu João tinha sido muito boa. Ele ficaria satisfeito em contribuir com um valor maior para o sustento da família. Também gostaria muito de resgatar os laços com todos, inclusive com ela. 

 

Ela me olhou sem dizer nada por alguns segundos. 

 

Permaneci em silêncio, demonstrando com meu olhar interesse e acolhimento

 

No tempo dela, desabafou: "Queria mesmo era que tudo voltasse a ser como antes... Ele me fazia companhia. Não era um marido ruim não, sabe? Além disso, os meninos são pré adolescentes... E sem a autoridade do avô, fica muito difícil... Nem sempre as influências da rua são muito boas..." 

 

Segui fitando Dona Maria. Queria que ela soubesse que eu estava ali para escutar seus sentimentos lamentos, suas ponderações reflexões

 

Ela então me disse assim: "Minha filha, você sabe que eu sou muito religiosa, não é? Pois a igreja prega o perdão... O problema é: o que eu diria às minhas amigas de credo que nos últimos anos acolheram meus infinitos resmungos em relação ao meu marido?" 

 

"Dona Maria" - disse eu - "A senhora gostaria de convidar suas amigas da igreja para virem conversar conosco?" 

 

Ela respondeu de pronto e em tom aliviado: "Pode? Puxa: seria maravilhoso..." 

 

Recebi Seu João, compartilhei com ele a possibilidade aventada. Ele achou tudo ótimo e saiu feliz e acompanhado de Dona Maria. 

 

Acordo? Formalização? Assinaturas? Para eles, nada disso era importante... 

 

Voltei pra casa naquele dia pensando sobre como as redes de pertinência - sociais (familiares, amigos, colegas de trabalho ou de prática esportiva, culto religioso etc.) ou profissionais (assessores técnicos em geral e assessores jurídicos em especial) - são um esteio para cada um de nós. Em contextos conflitivos, por vezes parecem fomentar o desentendimento. No fundo, talvez só nos queiram apoiar e ver bem. 

 

As amigas de Dona Maria vieram. 

 

O casal, já reconciliado e bastante satisfeito com a reaproximação, compartilhou sua decisão e os motivos daquela escolha. 

 

As três senhoras disseram de forma quase uníssona: "Nossa, finalmente... Nunca pensamos que essa estória fosse durar tanto tempo..."

 

 

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© 2017 por Ana Kucera