© 2017 por Ana Kucera

Eu não sou violenta

05/16/2017

 

Chegou à nossa equipe de mediação um caso de violência contra um adolescente, que chamaremos de Vinícius. O tema é sensível, dispara fortes emoções e polêmicas quanto à possibilidade ou não de uma mediação.

 

Lembrei a equipe da necessidade de ir além de um fato, um culpado e uma punição e de que era necessário compreender a situação, o contexto, as circunstâncias, os afetados etc.

Após reflexões, decidimos fazer o atendimento. Os agendamentos foram feitos e a dinâmica foi instaurada. A equipe acolheu cada um em separado, para as reuniões preparatórias para o encontro restaurativo.

 

Primeiro foi ouvido José, o pai de Vinícius, e sua atual companheira. Eles contaram que Maria, a mãe do menino, bateu no adolescente deixando em suas costas as marcas das seis chineladas. O motivo? O filho não estava frequentando as aulas, não fazia as tarefas escolares e foi pego fumando em um terreno abandonado com outros meninos já expulsos da escola. Que a atual esposa o incentivou a denunciar a agressão no Conselho Tutelar, entendendo que a mãe da criança precisava ser punida pelo crime. Que para garantir que haveria uma punição, foram também à Delegacia mais próxima registrar a ocorrência. Em seguida foi ouvida a mãe do adolescente, Maria, uma mulher que parecia muito triste e assustada. Ambos os lados decidiram participar da mediação restaurativa.

 

Imagem Shutterstock

 

Todos tiveram igual oportunidade de falar. Quando convidada, Maria, disse entre lágrimas: “Eu não sou violenta” e acrescentou: “Eu não gosto de bater no meu filho. Acho que nenhuma mãe gosta. Quando bato eu também sofro. Acho que dói muito mais em mim”. Ainda em prantos contou: “Meu filho mais velho foi morto a tiros. Ele se envolveu com coisa ruim. Morreu nos meus braços..." Ela contou que há 15 anos sofria e se culpava por jamais ter encostado um dedo no filho para bater e, ao mesmo tempo, por não ter podido ou sabido evitar a sua morte. Sua dor era tão nítida quanto a sua sensação de impotência. Parecia que ela não sabia como afastar Vinícius de uma trajetória que imaginava conhecer bem e saber como acabaria. Estava claro que ela não desejava reviver outra perda. Seu outro filho, fruto de uma gravidez na adolescência, foi criado sem o pai, mas teve muito amor por parte de Maria e dos avós maternos.

 

O silêncio tomou conta da sala. Sua narrativa, de uma honestidade inquestionável, tocou profundamente os demais. Todos estavam consternados.

 

José parecia desconsertado. Após o silêncio próprio de um diálogo consigo mesmo José falou: “Me arrependo de ter abandonado o Vinícius. Não sabia o que estava acontecendo...” e completou: “Ana sentia ciúmes quando eu ia à sua casa visitar o Vinícius e eu me afastei. Eu sempre soube que você havia perdido um filho, mas eu nunca te perguntei como foi. Eu também não quero perder o nosso...  Não suporto nem pensar nisso. ”

 

Estava claro para todos que bater em alguém não era correto, mas não era igualmente clara a forma de lidar com a situação que Maria trazia, seus medos e o risco de uma nova perda.

 

Depois de um longo silêncio, a atual esposa de José, emocionada perguntou a Maria se ela achava uma boa ideia o menino ir à tarde para a casa deles, pois ela podia apoiá-los. Maria assumiu alguns compromissos e todos se comprometeram a ajudá-la. Nesses termos foi elaborado um Plano de Trabalho. Cada um recebeu uma cópia. Coube a Conselheira Tutelar acompanhar o cumprimento das obrigações.

 

Ao findar a reunião e sair da sala, soltei um longo suspiro e esbocei um largo sorriso. Sentia-me leve. Pensativa revisitava algumas experiências exitosas em mediação, quando fui interrompida pela fala ofegante de alguém que corria na direção da Conselheira Tutelar dizendo: Sra., eu vim aqui para fazer uma denúncia de maus tratos!

 

Virei, sorri para ela que piscou para mim e segui para outro encontro de mediação

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