Para além de uma dissolução societária...

05/23/2017

Naquela manhã chuvosa, Joana e eu não podíamos supor que receberíamos um caso tão desafiador para Mediação...  

Tão logo Madalena e Pedro - chamaremos assim nossos protagonistas - chegaram, dedicamos alguns minutos a lhes explicar, em linhas gerais, o instituto da mediação e sua proposta.

Após tais esclarecimentos, indagamos se teriam interesse em participar e ambos disseram que sim.

Pedimos para que nos contassem o quê os trazia àquele espaço.

Pedro iniciou sua fala, dizendo que conhecia Madalena há muito tempo. Logo que se formou em Direito, ela o convidou para trabalhar em seu escritório. Muito honrado com o convite, tratou de aceitá-lo de pronto. A sinergia foi tanta que, rapidamente, virou sócio de Madalena.

Por anos, a parceria funcionou lindamente.

Para Madalena, teria sido inviável assumir um número tão expressivo de causas, sem o auxílio de Pedro. Para Pedro, toda a sua disposição de trabalho teria sido inútil sem os clientes trazidos por Madalena.

A relação contava com a enorme experiência de Madalena, que advogava há mais de 20 anos, e com a energia de Pedro, recém-formado, cheio de gás para acompanhar os processos e lidar com os clientes.  

Perfeito, não?

Pois é... Passados alguns anos, aquelas questões que os aproximaram num primeiro momento foram exatamente as que fizeram com que a relação entre os dois estremecesse.

Para Pedro, não bastava Madalena ter a experiência e os clientes, se não conseguia dar conta das demandas. Segundo o relato dele, ela sequer acompanhava os e-mails ou retornava as ligações dos clientes.

Em sua fala, Madalena explicou que já tinha feito muito. Segundo sua percepção, a oportunidade que tinha dado a Pedro era imensa. Esperava, em reconhecimento e contrapartida, que ele se dedicasse integralmente ao escritório.

A comunicação fluida de outrora passou a ter muitos chiados.

Madalena estava satisfeita com o número de processos que tinham acumulado. Já Pedro, que estava no auge da carreira, queria crescer e angariar novos clientes e possibilidades. Ao que tudo indicava pela fala dos dois, os propósitos passaram a ser dissonantes.

O tema mais sensível era: como seria definida a distribuição futura dos honorários provenientes dos processos que ainda estavam em curso?

Pedro entendia que ele estava acompanhando os casos sozinho, ao passo que Madalena tinha convicção de que, além dos clientes terem sido captados por ela, toda a instrução processual ocorreu por sua conta, uma vez que tinha acumulado ao longo dos anos um banco de minutas de defesas e recursos, reduzindo ou ao menos facilitando em muito o trabalho de Pedro.

Foi o ponto de partida para uma longa discussão que evidenciou decepção, frustração e mágoa de ambas as partes.

Percebemos ali o quão essencial seria para a mediação aprofundarmos os sentimentos que estavam vindo à tona.

Os ânimos ficaram tão aflorados que por um instante chegamos a considerar que precisaríamos interromper a mediação...

Decidimos, no entanto, dar uma pausa de alguns minutos para um café e um respiro.

 

Na conversa com minha parceira de mediação, decidimos fazer reuniões individuais  - também conhecidas como caucus - para que cada um pudesse esvaziar o copo, colocando para fora tudo aquilo que era preciso.

Madalena seria a primeira, já que Pedro tinha iniciado - balanceamento entre as partes.

Muito emocionada, olhou para nós duas e falou algo como: “Sempre tratei esse menino como um filho, não estou entendendo o comportamento dele. Praticamente tudo o quê ele sabe foi graças a mim. Sempre estive disponível para ajudá-lo - o que fazia com muito gosto e carinho”.

Deixamos ela falar, falar e falar...  

Quando sentimos que já era o momento, fizemos algumas perguntas, como por exemplo: "O que você acha que está fazendo Pedro agir assim?"

Ela respondeu: “Não sei ao certo... Acho que ele quer mais... Ainda está novo, né? Diferente de mim que já estou atuando há 25 anos e quero ter tempo para me dedicar a meus netos, às novas prioridades deste meu momento de vida."

Na vez do Pedro, ele se sentou junto a nós duas e, sem que perguntássemos qualquer coisa, iniciou sua fala, listando incontáveis elogios à Madalena. Afirmou que muito do quê sabia tinha aprendido com Madá e que não teria chegado tão longe em tão curto espaço de tempo sem seu apoio."

 

Propusemos uma reflexão a ele: "O que você acha que Madalena quer nesse momento?"

Ele parou por um instante e disse: “Sinto que ela queira ter mais tempo livre para a família - os netos têm uma importância muito grande para ela”.

Ambos foram assertivos em autorizar que tudo o quê foi dito nas reuniões individuais fosse compartilhado em reunião conjunta.

Juntamos novamente os dois e iniciamos a conversa pelos pontos positivos e fortes que cada um havia ressaltado em relação ao outro.

Nesse momento, os dois respiram fundo e sinalizaram por meio da linguagem não verbal algo como: “Ufa, ainda bem que ele/ela reconheceu isso...  Que alívio saber que ela/ele pensa assim”.

 

Depois desse reconhecimento mútuo, as questões objetivas relacionadas aos honorários foram facilmente combinadas por eles e um acordo foi redigido com todos os pontos que eram importantes para eles formalizarem a dissolução da sociedade, sem prescindirem da relação afetiva.

Joana e eu deixamos o Núcleo de Mediação pensativas de como a vida tem o condão de mudar as coisas e do quanto a mediação pode ajudar na preservação da harmonia...

Imagem por 123Rf 

 

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© 2017 por Ana Kucera