Minhas netas brincando novamente

D. Joana chegou trazendo um caso incomum. Já havia dois anos que ela não via a neta Daniela e sentia a dor da falta duplamente: isso porque a ausência da neta também impedia o convívio dela com a prima que estava diariamente na casa da mesma avó. As duas tinham por volta de 11 anos de idade, eram melhores amigas e praticavam jiu jitsu, herança do avô já falecido que costumava brincar com elas desde a infância.

 

Devido a uma história de “vício em jogos de azar”, os pais de Daniela se separaram de tal forma que em poucos dias Marcelo saiu de casa deixando a filha com a mãe Carla. O rompimento foi doloroso e Carla, por se ver sozinha no dia a dia e com receios diversos, passou a ter um cuidado e um olhar frequente e intenso sobre Daniela. Queria saber de tudo a cada instante.

 

D. Joana queria oficializar a visita de Daniela à sua casa e para isso precisava conversar com Carla. Sim, ela havia aberto um processo para atingir este objetivo. Algum tempo depois da separação, devido a brigas de seus pais, Daniela deixou de frequentar a casa da avó. Marcelo viajava muito e, quando estava no Rio, pegava Daniela, ficava com ela e devolvia pra Carla sem passar na casa de sua mãe D. Joana. O resultado é que Daniela não via mais D. Joana e nem sua amada prima.

 

A primeira coisa que Carla disse no encontro de mediação foi que Daniela podia ficar com a avó quando quisesse e que nunca impedira o convívio. Foi uma surpresa pois, se não havia obstrução, por que os encontros não vinham ocorrendo? Por que abrir um processo para isso?

Pelas falas e histórias trazidas durante as sessões de mediação, foi possível perceber que D. Joana teve uma infância dura e sofrida e oferecia resistência para tudo aquilo que ela entendia como errado. Como ela mesma dizia “não tinha papas na língua” e completava “essa menina precisa ser criada direito, da mesma forma que eu crio a prima dela”.

 

Acontece que Carla era uma mãe presente, tinha clareza dos papeis de mãe e avó e puxava da filha muito do que ocorria na casa da avó. Gostava de D. Joana mas guardava mágoa do dia em que, numa reunião de família – ainda casada com Marcelo -, foi tratada por ela de forma irônica devido a sua forma humilde de falar. Achava que “esse negócio de luta era coisa pra menino e que D. Joana não era assim tão letrada pra ficar corrigindo a neta a cada frase”.

 

Durante a mediação, D. Joana e Carla puderam dizer aquilo que admiravam uma na outra mas também não pouparam julgamentos e críticas recíprocas. Ora o clima era amigável e cordial e ora agressivo e com pouca paciência e escuta. Íamos costurando as necessidades por trás de cada crítica mas percebíamos que muitos aspectos do que era dito na sala de mediação tinham origem nas relações com pessoas que lá não estavam. Marcelo era uma dessas pessoas e a mãe de Carla (que muitas vezes ficava com Daniela) também.

 

Olhar para o todo e ver o impacto que este todo tem nas partes é a base do que chamamos pensamento sistêmico e a mediação estimula este tipo de visão. Sendo assim, conversamos sobre e planejamos como trazer o Marcelo e a mãe de Carla para a mediação. A esta altura D. Joana e Carla já estavam se entendendo melhor, considerando as particularidades e papeis de cada uma e era nítido o posicionamento relaxado que assumiam nas cadeiras. Mas a situação era complexa e tínhamos ali um grande desafio ao mexer com tanta gente.

 

No dia em que os pais de Daniela se encontraram em mediação, muitos assuntos que em outros espaços não se desenvolviam ali puderam ser tratados. Marcelo reclamava que Carla só fazia exigir coisas e ações dele e ela dizia que ele não ajudava em nada. Aos poucos fomos trabalhando a autonomia de que ele falava e a parceria que ela tanto precisava. A conexão foi se ampliando e sinais de alívio foram aparecendo. Construímos juntos uma agenda que iria ser encaminhada nos encontros seguintes mas, como após a segunda reunião, eles já estavam dialogando melhor, apesar do alerta do risco, infelizmente os dois tentaram acelerar os assuntos e começaram a querer resolver as coisas fora do espaço da mediação. Nas conversas telefônicas e nas mensagens de whats app, as diferenças foram crescendo novamente, os velhos padrões de relação ressurgiram e assumiram a tônica da comunicação fazendo com que eles entrassem em discussões acaloradas a ponto de desistirem do diálogo e da mediação. Bem, estamos falando de vida e não de novela...

 

Retornamos então ao caso original. Durante o período em que a mediação deu foco à relação dos pais de Daniela, D. Joana e Carla puderam restabelecer e ampliar a relação. Perceber a dimensão do conflito parece ter despertado em ambas uma maior tolerância. Daniela estava frequentando a casa da avó e não descolava mais da prima. D. Joana entendeu a importância de respeitar o espaço e a figura da mãe e passou a perguntar e dividir cumplicidade com ela. Do seu jeito, dizia que as coisas não estavam certas mas ao invés de gastar energia tentando mudar os outros, passou a focar na preservação da relação das netas. Carla, por sua vez, começou a confiar mais em D. Joana e a filha já não precisava mais ficar telefonando pra mãe a cada momento.

 

Essa história já tem mais de dois anos e mexeu com tantas pessoas de forma tão profunda que optamos por manter um monitoramento do caso. Ficamos sabendo que as coisas continuaram bem entre nora e sogra, que as primas agora estudam na mesma sala e não só treinam jiu jitsu todos os dias como motivaram a direção a abrir uma turma dentro da própria escola. Inseparáveis, viraram referência de amizade, união e determinação.

 

 

 

* Sergio Harari é mediador, coach de conflitos e financeiro e analista de negócios

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