Mediação, a revolução - Parte I

06/06/2017

Quando esbarrei na mediação pela primeira vez, estava passando por um momento profissional difícil. Um tanto frustrada com a carreira de defensora pública, tinha a sensação de sempre dar más notícias aos assistidos*: “tem chance, mas vai demorar”; “ganhou, mas não levou”. Às vezes, até mesmo quando a notícia parecia boa, a resposta vinha num lamento: “ah, mas demorou tanto... agora tudo mudou, nem preciso mais disso...”. A grande maioria das pessoas não saía feliz da minha sala e, por mais que eu me dedicasse, via pouca utilidade na minha atuação.

 

Então a mediação cruzou meu caminho.

 

Já nos primeiros passos da formação como mediadora fui profundamente tocada. A mediação me proporcionou um novo olhar para os conflitos – os conflitos dos assistidos, da minha equipe de trabalho, da minha vida. Esse olhar se entranhou em mim. Desde então, a mediação esteve presente em todos os momentos do meu dia a dia profissional – mesmo quando não atuo diretamente como mediadora.

 

A mediação me ensinou que existem muitos meios para lidar com um conflito. Propor uma ação judicial é apenas um deles. Me incentivou a informar o assistido sobre as possibilidades de encaminhamento para o seu problema e permitir que, sabedor dos riscos e benefícios de cada caminho, ele próprio decida qual solução é a mais adequada. Mais adequada para ele. Aprendi com a mediação que cada um pode e deve decidir qual é a melhor solução para o seu problema.

 

Como consequência, percebi que minha função profissional não é ajuizar ou dar andamento em processos judiciais, mas sim ajudar o assistido a ter seus interesses atendidos. Para isso, tenho que ajudá-lo a focar nas suas reais necessidades - que nem sempre estão claras para quem está imerso em uma situação de conflito.

 

Por exemplo: quando uma mãe procura a defensoria pra cobrar R$30,00 atrasados da pensão alimentícia dos filhos, valor este que não paga nem sua locomoção para acompanhar o processo, devo ter a sensibilidade de perguntar: “qual é o seu objetivo?”. Da última vez que isso aconteceu – não foram poucas - a assistida, Silvia, me respondeu que na verdade o que ela queria era provocar o Alex, pai das crianças, “pra ele lembrar que tinha filhos”, já que não os via havia mais de um mês. Perguntei então a Silvia o que ela achava de convidar Alex para que conversassem na minha sala – e ela topou. Na conversa fiquei sabendo que sempre que os dois se encontravam acontecia um bate-boca. Às vezes a discussão esquentava, as crianças estavam presentes, e todos saíam machucados da situação – o que fez Alex dar um passo atrás e deixar de procurar os filhos. Ninguém estava feliz com o que estava acontecendo e então pude intermediar uma conversa que levou essa família construir uma forma de conviver melhor.

 

A mediação mudou minha forma de interagir com os assistidos. Me mostrou, por exemplo, que quando legitimo a frustração do assistido com um eventual atraso no atendimento, ele se sente acolhido. Se eu puder compartilhar com ele que também fiquei frustrada com a demora, que gostaria de tê-lo atendido na hora agendada, que não pude fazê-lo porque um dos estagiários ficou doente, precisou faltar e por isso estamos tendo um dia difícil, nós nos conectamos e o problema perde um pouco da importância. A mediação me proveu de ferramentas para realizar um atendimento mais pessoal. Mais humano.

 

A mediação me capacitou para lidar com as necessidades de cada um dos membros da minha equipe de trabalho – funcionários e estagiários - de forma acolhedora e objetiva, o que reverbera nos assistidos, que são atendidos por esses profissionais dessa mesma maneira. Me ensinou que se garanto vez e voz a todos, construo uma equipe unida e comprometida.

 

Pra usar a palavra da moda, a mediação me empoderou profissionalmente. Me preparou para ser uma peça importante – e uma influência positiva - na condução de conflitos. Me devolveu o gosto pela minha profissão.

 

Mas não foi só profissionalmente que a mediação revolucionou a minha vida. Minha vida pessoal também mudou completamente.

 

Mas isso é conversa para daqui a nove semanas.

 

Crédito da imagem: pixabay

 

*assistidos são os beneficiários da assistência jurídica gratuita, ou seja, os “clientes” da Defensoria Pública

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© 2017 por Ana Kucera