O tempo de cada um

Era mais um dia de plantão no Tribunal. Eu e minha equipe nos reunimos um pouco antes do horário marcado para a sessão de mediação que nos foi designada e, após alinhar como se dariam os procedimentos para aquele caso, iniciamos a sessão nos apresentando, informando acerca da dinâmica do processo e dos princípios que regem a mediação.

 

Era um caso de família, aonde o pai, que vamos chamar de Pedro, pretendia obter a guarda de sua filha Nina para levá-la para morar com ele em Recife.

 

Ocorre que a mãe, ora denominada de Laura, que obtinha a guarda de Nina desde a separação do casal, não concordava com isso.

 

Era de fato uma situação muito delicada. Pedro e Laura se separaram quando sua filha, que apelidamos de Nina, tinha apenas 3 anos. A relação do ex-casal era marcada por um histórico de violência física e verbal e Nina, hoje com 9 anos, não estava apresentando bom desempenho escolar, não dormia e nem tomava banho sozinha, além de urinar e evacuar na sua roupa íntima em alguns momentos.

 

Foram várias sessões de mediação, conjuntas e privadas (individuais com um e com o outro), trabalhando para que se sentissem ouvidos como também para que ouvissem o outro através do exercício da escuta ativa, acolhendo e legitimando os sentimentos de ambos e cuidando sempre do equilíbrio entre os dois mediandos, realizando perguntas reflexivas e autoimplicativas para que se colocassem no lugar do outro e no lugar de Nina, e ainda com a ampliação de alternativas para a solução da questão trazida.

 

O pai creditava todos os problemas da filha à mãe, que ele considerava uma mulher desequilibrada em todos os aspectos.

 

E a mãe, por sua vez, acreditava se tratar de uma estratégia de Pedro para não pagar mais pensão alimentícia.

 

Diante do impasse, levamos o caso para supervisão, explicamos todo o ocorrido, todas as técnicas utilizadas durante as sessões, e que o único ponto de consenso entre o ex-casal foi a identificação da necessidade de se encaminhar Nina urgentemente para um acompanhamento psicológico com um especialista.

 

Assim, nossa supervisora identificou que de fato não havia mais o que ser feito, que tínhamos utilizado todas as técnicas e ferramentas que eram possíveis e nos aconselhou a encerrar o caso e devolver o processo para a Vara de origem para que o Juiz proferisse sua decisão final e foi o que fizemos após conversar com os mediandos.

 

Apesar da frustação da equipe com o desfecho do caso, o que acontece é que algumas pessoas precisam de um tempo maior para processar tudo o que foi trabalhado durante as sessões. Mas seguimos na certeza de que o nosso trabalho havia sido feito.

 

E foi de fato o que ocorreu. Recentemente reencontrei Laura no Tribunal com aquele mesmo advogado que a acompanhou durante todo o nosso procedimento, os quais estavam aguardando uma sessão de mediação requerida por este advogado em um outro processo de Laura, por ter ficado muito satisfeito com a experiência que teve com mediação no nosso caso.

 

E para minha felicidade, ela veio me contar que Nina estava sendo acompanhada por uma ótima profissional, que estava bem melhor e que, ela e Pedro juntos entenderam que o melhor para Nina seria deixá-la vivendo no meio em que já estava inserida socialmente, perto de sua família e amigos e que a convivência com o pai se daria nas férias, feriados prolongados e sempre que fosse possível e combinado entre eles.

 

A semente foi plantada e germinou!

 

 

 

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© 2017 por Ana Kucera