O Bando e o Caranguejo

07/11/2017

Era um dia lindíssimo na 'Praia do Rosa': céu azulzinho, sol vigoroso, brisa fresca vinda do mar.

 

Depois de atravessarmos a 'Lagoa do Meio' em companhia do simpático barqueiro da pousada, meu marido e eu armamos nossas cadeiras de praia na areia fofa, bem em frente ao mar.

 

Passeamos de uma ponta à outra da praia, felizes da vida!  Em seguida, passamos quase três horas nos divertindo com tanta vida ao nosso redor!  As gaivotas alçavam belos voos pela praia.  Havia caranguejos por todo o filete que mistura as águas do mar com as da lagoa.  Os cachorros corriam, esbanjando alegria.  Até mesmo um cavalo montado por uma jovem apareceu em meio a toda aquela paisagem indescritível.

 

Para nós dois, eram momentos de pura energia!  Estávamos nos reoxigenando da rotina frenética do dia a dia na cidade grande. Maravilhados com a beleza e a calmaria, não prevíamos o que estava por vir.

 

Aparentemente, não havia a menor razão para os três cachorros que caminhavam com seus donos na beira d'água abordarem o transeunte e desavisado caranguejo...  

 

Por alguns segundos, houve uma interação que ensaiou curiosidade e hostilidade, de parte a parte.  Da minha cadeira de praia, sem conseguir conter o meu lado mediador, comecei a assobiar a plenos pulmões, de novo e de novo, na expectativa de chamar a atenção dos cachorros e assim distrai -los. 

 

Era uma "técnica" nova pra mim...  Meus assobios bem intencionados não foram suficientemente "habilidosos"...  O pastor - líder do bando, com toda certeza - mordeu o caranguejo duas vezes.  Ao ouvir os estalos e ver o bravo (ou melhor seria chamá-lo de brabo?) crustáceo voando pelo ar, deixei escapar sem querer um sonoro: "não!!!"...

 

Os cachorros fuçaram o local aonde se havia estatelado o caranguejo e logo se afastaram, buscando uma nova fonte de interesse. 

 

Em meio a um sentimento de lamento, me aproximei da "cena do conflito", na intenção de ainda poder remediar o trágico desfecho...  Nada feito: o casco do caranguejo, dono de belas patas azuis, estava partido em dois pedaços...

 

Pensativa...  Sentida...  Passei a refletir sobre o quê tinha acontecido... 

 

Puxa...  Havia espaço suficiente para caranguejo e cachorros conviverem harmoniosamente.  O caranguejo sequer integra a cadeia alimentar dos cachorros...

 

Teria sido o estranhamento entre as diferentes espécies?  Ou será que a reação hostil do caranguejo à investigação do cão policial teria provocado/alimentado a reação de hostilidade?

 

Aquilo que parecia uma singela brincadeira entre os caninos acabou se mostrando um conflito que rapidamente escalou...

 

Estive por todo o tempo vidrada na interação.  Pude perceber claramente que o caranguejo despertou o interesse momentâneo dos cachorros.  Ouso dizer, pelo que assisti, que não passaria disso...  A reação hostil daquele crustáceo, no entanto, pareceu ter contribuido para despertar a competição no bando.  E depois disso: vocês já conhecem o desenrolar dos acontecimentos...

 

Tomando essa estória como uma metáfora para pensar os conflitos, ficou ressoando em mim a pergunta: por que será que reagimos de forma tão contundente - por vezes até mesmo hostil - ao que não significamos como familiar, esperável, acolhedor?

 

Estou cada vez mais convencida de que criamos expectativas em relação aos outros: seja a partir de um senso de "normalidade" daquilo que podemos/devemos esperar das pessoas em geral, seja a partir das relações construídas e dos anseios que vão se firmando ao longo do tempo.

 

Procuro fugir da armadilha das convicções...  Afinal, elas nos roubam a abertura para novas/renovadas formas e perspectivas de se ver as coisas... 

 

Contudo, por ora, diria que estou encantada com a percepção de que a confiança pode ser uma das grandes chaves da mediação.

 

Será que os conflitos acontecem porque/quando as pessoas deixam de se confiar?  Será que a harmonia virá do resgate dessa confiança, mais do que do diálogo em si?  Será?  Pensando, repensando e gostando do resultado de tanto pensar...

 

 Imagem por Samantha Pelajo

 

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© 2017 por Ana Kucera