Precisamos discutir a relação (DR)!?

07/18/2017

O que você costuma sentir quando ouve de seu marido/mulher, companheiro/a, namorado/a, pai/mãe/filho/a, irmã/o, amigo/a, aquela derradeira frase: “precisamos conversar”; “preciso ter uma conversa séria com você” ou ainda “precisamos discutir a nossa relação” (mais conhecida como ‘DR’)? E se é você que propõe isso? Já parou para perceber o que se passa dentro da gente? Eu já e, dependendo da pessoa e do que imagino ser o assunto, meu corpo todo fala comigo: posição de sentido, as vísceras parecem mexer, o coração bate mais forte, a respiração parece não completar, os músculos se retesam e, tudo o que mais quero é me transportar para um lugar com o sol da manhã bem quentinho me aquecendo, olhando uma paisagem com muitas árvores e só ouvindo o barulho do ar, da mata e dos pássaros!!!!

    

Ainda quero fazer uma enquete sobre isto. Sobre como reagimos e como nos preparamos para um momento como este. Refiro-me àquelas situações que já existem há algum tempo, às vezes há um longo tempo e sabemos (quando propomos e/ou quando nos propõem tratarmos do assunto) que algo precisa ser feito mas que é muito incômodo, podendo ser até bastante ‘doloroso’ abrirmos essa ‘caixa’, pois não temos ideia do que dali pode sair, talvez por receio de não darmos conta de tantas coisas acumuladas que foram guardadas e que vão se emaranhando.

 

Outra imagem que me vem é de uma viga de ferro que começa a enferrujar e ainda não nos damos conta de que, com o tempo, caso não se cuide, começa a esfarelar até que um dia pode ruir causando danos ao que está sustentando; mas, ao nos darmos conta, sabemos que pode ser fortalecida com a aplicação de algum recurso: dependendo do grau de deterioração, um tratamento com tinta  zarcão (composto químico para a proteção contra a ferrugem) é o suficiente, devendo receber novos tratamentos de tempos em tempos; se a necessidade for maior, precisará, então, de um reforço e/ou renovação das estruturas. No entanto, algumas questões vêm à tona: até quando a viga pode aguentar? Mexo nela agora ou deixo enferrujar um pouco mais e cuido depois? Eu mesmo posso cuidar disso ou nesse momento preciso de algum outro recurso que me auxilie a perceber e administrar quais são as necessidades e preocupações?

 

Maravilhoso quando podemos abrir sozinhos as nossas ‘caixinhas’ ou cuidarmos, nós mesmos, das nossas ‘vigas’ sem recorrermos a outras instâncias, aliás, isso é o mais comum de acontecer, faz parte do nosso modo relacional de vida e é muito bem vindo ao nosso dia a dia. Também é possível que nos surpreendamos na hora de abrir a caixa, pois ela pode estar emperrada ou, como no exemplo da viga, se encontre em algum estado que o bom senso e a urgência pedem que recorramos a um lugar que possa cuidar da situação junto conosco.

 

Penso que é nesse dilema que algumas pessoas chegam à mediação, tendo sido elas a entrar com a solicitação, ou tendo sido convidadas/ chamadas a participar.

 

E hoje já existem vários locais onde é possível buscar esse recurso: nas comunidades onde tenham Núcleos de Mediação Comunitária, na Defensoria Pública (DP), nos Centros Judiciários de Solução de Conflitos (CEJUSCs), antes mesmo de entrar com uma ação judicial (o que se chama mediação pré-processual), assim como já existem Câmaras de Conselhos Profissionais e as Câmaras Privadas de Mediação, com a facilidade de encontrá-las através da internet.   

 

É muito gratificante perceber como as pessoas podem sair, ‘relativamente’ num curto espaço de tempo, de um estado de ansiedade, angústia, mágoas, por exemplo, para um estado de possibilidades que se abrem para um diálogo com o outro. Não é um recurso mágico, nem indicado para todas as situações, mas é um recurso já bastante acessível, porém requerendo, ainda, contínua e ampla apresentação à população de nosso país, no sentido de que conheça, também, outra possibilidade de cuidar e de lidar com os seus conflitos. Saber onde procurar é o primeiro passo, seguido de um (às vezes mais de um) encontro, onde será explicado a quem comparece, o que é uma mediação, em que bases ela funciona (seus princípios) e, com a colaboração do/a (s) mediador/a (s), identificar se pode ser um bom recurso para as necessidades trazidas. Em síntese, querer estar em uma mediação é uma escolha que se faz de forma voluntária. Esse é um de seus mais básicos princípios: após conhecer como se dará o procedimento, optar por fazê-lo ou não.

 

Voltando, então, às nossas metáforas, além de requerer que as pessoas envolvidas queiram aderir ao procedimento da mediação, é importante que tenham, também, disponibilidade de querer mexer em ‘suas caixas’ ou em ‘suas vigas’.

 

Assim ocorreu com João e Maria (nomes fictícios) em uma mediação. Inicialmente apresentaram o que gostariam de resolver após 5 meses de separação conflituosa, sem conseguirem sentar e conversar sobre temas relacionados à filha Isabel (nome fictício) de 4 anos e deles enquanto pais. Mostraram, então, a necessidade conjunta de organizarem melhor a convivência entre o pai e a filha assim como as questões relativas à manutenção financeira da criança. Aparentemente, no início, tudo parecia caminhar de acordo com o que ambos expressavam que queriam combinar, sugerindo pressa na finalização de um acordo para assim seguirem suas vidas.

 

No entanto em uma nova sessão, Maria trouxe e detalhou novas preocupações relativas à convivência do pai com a filha, não mencionadas na sessão anterior, demonstrando insegurança na relação entre eles e solicitando que o acordo a ser escrito especificasse com detalhes esse convívio. João aparentando ter ficado muito atingido com o que fora trazido por Maria, especialmente pela demonstração de sua desconfiança com relação aos seus cuidados paternos, considerou que não precisava regulamentar nada dos detalhes trazidos da rotina com a filha, informando que era um pai presente e que atendia a todos os pedidos da mãe. Conforme Maria foi exemplificando alguns fatos ocorridos, João, visivelmente irritado, culminou com o pedido de assinatura do acordo o quanto antes com o que a Maria quisesse que fosse escrito, parecendo querer se ver logo livre daquela situação.

 

As mediadoras puderam, então, explicitar (trazendo à lembrança o que tinha sido mencionado na primeira sessão sobre os princípios da mediação), que não caberia assinar um acordo quando ambos ou um dos interessados não estivesse confortável com o que estaria sendo proposto e lhe foi perguntado, se gostaria de ouvir de Maria sobre o receio que ela havia se referido e se poderia perguntar a ela sobre isso. A partir da demonstração de disponibilidade de João em escutar Maria, esta pôde narrar sobre os seus medos, subjacentes às histórias relatadas e João pôde entender o que estava se passando com ela, tendo mudado completamente seu humor e disponibilidade em ouvi-la. Maria, por sua vez, pôde compreender a importância de falar mais claramente com João o que se passa com ela quando diz respeito à relação deles como pais e à necessidade de cuidar e levar em conta a maior participação de João nas decisões relacionadas à vida da filha.

 

Isso se chama trabalhar a pauta subjetiva, um poderoso recurso da mediação! E por que não em nossas DRs cotidianas!? 

 

 

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© 2017 por Ana Kucera