Para além do trem, da plataforma e da estação

07/24/2017

Os personagens Carol e Fernando, pais de Maria, foram criados para essa estória que pretende sintetizar centenas das que me vem sendo confiadas ao longo de mais de duas décadas dedicadas à Mediação de Conflitos. São histórias resguardadas pelo sigilo, princípio fundante das metodologias autocompositivas que, por essa razão, jamais poderão ser contadas.   

 

Carol e Fernando vieram por indicação de amigos que vivenciaram uma Mediação. Chegaram aparentando alguma tensão. Foram acolhidos, receberam informações sobre a Mediação e seus princípios norteadores e puderam contar os motivos de suas vindas. Na sequência, foram apresentados à Dinâmica da Mediação e decidiram aderir.

 

Após a etapa exploratória, que busca informações sobre as pessoas, relações, contexto/rede de inserção e a criação de ambiente apropriado para a escuta e fala mútuas, estávamos dotados de uma cartografia bem delineada das questões e tínhamos clareza quanto aos temas a serem conversados. Ofertamos a seguinte pauta temática: comunicação, convivência, necessidades da Maria, recursos para as despesas e o que parecia ser um item crítico: a moradia.

 

Os itens menos complexos iam sendo tratados e acordos pontuais foram sendo construídos, proporcionando a experiência da autoria das soluções e a percepção de que nem tudo era dissenso.

 

Considerada um item de cuidado, a moradia motivou reuniões individuais. Carol explicou que a casa era da tia de Fernando, uma senhora que apoiava sua permanência no imóvel. Fernando, ao seu turno, disse querer morar perto dos seus irmãos e primos, pois cresceram todos juntos e não queria se afastar.

 

Buscando entender melhor os vínculos de cada um com a casa, os incentivamos a contar mais sobre suas rotinas, o que mais gostavam e o que tornava a casa tão única e importante.

 

Carol contou que o terreno abrigava “três casas e uma área onde instalara sua máquina de lavar roupas e a esteira de ginástica”. Mas disse que não acessava mais seus equipamentos. Haviam colocado um portão impedindo o seu ingresso. A lixeira havia mudado para a frente de sua janela e, com isso, era impossível abri-la.

 

Com genuíno interesse pelo que prendia Carol a um local aparentemente tão hostil, perguntamos, com delicadeza: Carol, como você imagina o local ideal para vocês viverem? Após muito pensar disse: “Pergunta difícil...” Houve um longo silêncio até que disse: “Não gosto dali. Mas esse era o nosso ninho de amor. Ele jamais vai viver lá com ela!”

 

Percebia-se que Carol estava determinada a lutar pela sua permanência na casa e parecia disposta a um enorme sacrifício...

 

Era como se o trem tivesse partindo para uma nova aventura, com todos felizes a bordo e ela estivesse abandonada na estação. Imaginava, em sua fantasia, uma viagem perfeita, para a qual não havia sido convidada. Em sua dor, não se dava conta de que ela também tinha um bilhete em suas mãos e poderia escolher qualquer destino, qualquer composição. Escapava-lhe que estava livre para descobrir novos rumos, conhecer paisagens jamais vistas, sabores ainda não experimentados e, especialmente, para outros encontros...

 

Ao conseguir olhar para além do trem, da plataforma e da estação, Carol se permitiu residir com Maria em outro local, bem distante dali. Então, o tema da convivência ganhou maior relevância.

 

Fernando, muito agarrado com a filha, sentia saudades. Chegava cabisbaixo e frequentemente se emocionava. Estava sofrendo por ver Maria apenas uma vez por semana e pernoitar com a filha, em finais de semana alternados.

 

Um acordo provisório foi criado e, meses depois, eles retornaram. Carol alegre com o novo emprego e amigos, cuidava da convivência da criança com o pai. Dizia gostar de ter um tempinho livre para si também. Fernando risonho se alongava narrando proezas da filha quando em sua companhia.

 

Concluímos a Mediação com um autêntico acordo da autoria dos mediandos, cuja redação foi entrecortada por conversas alegres e temas vibrantes.

 

 

 

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© 2017 por Ana Kucera