Um impasse atroz - a mediação sob a ótica de um mediando

08/08/2017

Estávamos na quadra de vôlei entre amigos. Eu já jogava há algum tempo por lá, ela chegava pela primeira vez trazida por amigos em comum. Rapidamente percebi nela uma grande habilidade ao jogar, o que me chamou a atenção. Já no primeiro dia começamos a conversar e, durante os sábados seguintes, uma amizade foi acontecendo.

 

Ela saía de uma relação de muitos anos e eu estava solteiro. Éramos estudantes universitários e compartilhávamos muitos interesses em comum. Morávamos no mesmo bairro, gostávamos de cinema, música, teatro, comer e beber bem. Poucos meses depois, estávamos namorando. Foi uma paixão avassaladora, a vida parecia não fazer mais sentido sem que estivéssemos um na presença prazerosa do outro...


Era manhã de uma quinta-feira, eu havia faltado ao trabalho para fazer as malas e mudar-me para a casa da minha irmã. A separação já era uma realidade, não havia mais retorno para o nosso relacionamento que já durava 15 anos. Nossos filhos na época tinham 11 e 14 anos respectivamente.


Num dia que nos parecia muito sombrio nos encontramos, finalmente, no Tribunal de Justiça, depois de tantas brigas e discussões a respeito da pensão alimentícia e da guarda dos nossos filhos. Eu pedia a guarda compartilhada, enquanto ela queria a guarda unilateral. Diante da juíza pudemos expor nossas razões para as diferentes pretensões. Eu explicava que, como pai presente que sempre fui, não poderia considerar ficar alheio a todas as decisões concernentes à vida dos nossos filhos. Ela, por sua vez, dizia sentir-se insegura em relação à minha real participação, o que poderia, segundo ela, deixar de acontecer com o passar do tempo, preferindo assim, ter total controle sobre a vida de nossos filhos.


Nesse momento, eis que o improvável – naquele ano de 2009 – surge: a proposta da juíza de nos encaminhar para uma mediação judicial, na qual, com o diálogo facilitado por duas mediadoras, encontraríamos juntos a saída para o que parecia um impasse atroz.


Ao chegarmos para a primeira reunião de mediação no Tribunal de Justiça, não conseguíamos nem mesmo nos entreolhar. Alimentávamos um sentimento de ódio que parecia existir uma vida inteira. Sentar à mesa, lado a lado, parecia ser uma tarefa quase impossível. Após a explicação do que se sucederia nas sessões de mediação, orientados pelas mediadoras, começamos a falar, cada um na sua vez, daquilo que nos angustiava e incomodava. Já na primeira reunião, saímos da sala com uma despedida distante, porém, cordial.


Seguiram-se mais quatro encontros de mediação, durante os quais o poder transformador do diálogo foi, naturalmente, moldando o que se tornaria um acordo de convivência e a nossa decisão final pela guarda compartilhada dos meninos.


Hoje, passados alguns anos, percebemos o quão valiosa foi essa oportunidade que nos abriu ao diálogo e mudou, muito positivamente, os rumos do novo caminho que despontava a nossa frente.


Indubitavelmente, a mediação constitui, a meu ver, o grande caminho para as pessoas, por todo o mundo, encontrarem a paz, podendo assim seguir com menos ódio e com uma capacidade maior de colocar-se no lugar do outro para que decisões sejam tomadas de modo a realizar, não os desejos e necessidades individuais, mas as expectativas possíveis de serem contempladas para o bem maior da coletividade. 

 

 

*Marcone Rocca é Professor de Francês do Colégio Pedro II, Mestre em Teoria da Literatura e Literatura Comparada, Especialista em Tradução de Língua Francesa. Participou de uma mediação no ano de 2009.

       

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