Um caso de amor com o sushi e a mediação

E cá estou eu novamente.

 

Desde que virei oficialmente “blogueira”, cada atendimento que faço na Defensoria, cada cena vivida, cada história que me contam, parecem virar motivo e inspiração para escrever um texto para nosso blog Mediando por aí.

 

É fascinante perceber  a quantidade de coisas interessantes que borbulham ao nosso redor.

 

Não quero dizer com isso que todas as histórias são sempre felizes, com bons momentos e apenas coisas boas, mas certo é que, mesmo aqueles momentos mais críticos e difíceis podem nos inspirar a escrever, surgindo, assim, grandes oportunidades de  aprendizado e reflexão.

 

Hoje, entretanto, não vou contar nenhuma história específica ou narrar um caso de mediação feita por mim. Tampouco falarei de técnicas e estratégias para uma boa e bem sucedida mediação.

 

Pretendo, de forma despretensiosa e informal, falar com vocês sobre sushi. Melhor dizendo, o efeito  sushi.

 

Sushi é uma iguaria de origem japonesa, caracterizado por ser feito de arroz temperado, enrolado em peixe cru ou frutos do mar frescos, vegetais, frutas, ovos e algas. Etimologicamente, a palavra sushi vem do japonês arcaico e significa literalmente "é azedo", isto porque a receita é feita a partir de uma técnica oriental milenar de conservação de peixes em arroz avinagrado e fermentado.

 

O “efeito sushi” me foi apresentado de forma muito sutil e natural, por meio da fala de uma amiga querida e exímia mediadora num dia em que demos aula juntas para uma turma no Tribunal de Justiça. Enquanto escrevia esse texto fui autorizada por essa amiga a sair do anonimato e revelar de quem se trata, não é Gabriela Assmar?

 

Bem, para aqueles que acham que estão lendo o blog errado – afinal este deveria falar de mediação e não de gastronomia – peço que continuem lendo e tenham um pouquinho de paciência...

 

Não é segredo para ninguém que tudo aquilo que é novo e desconhecido causa desconfiança. O novo e o desconhecido podem causar, também, uma espécie de desconforto, que significa exatamente isso:  falta de conforto, incômodo.

 

O que sentimos quando resolvemos quebrar velhos paradigmas e acreditar que o “novo” pode ser “bom” ?

 

Qual é a nossa sensação quando  experimentamos algo até então desconhecido?

 

Certo é que, quando ultrapassamos esse incômodo inicial, e finalmente conseguimos romper com antigos conceitos, sentimos uma incrível sensação de bem- estar. Estudos comprovam que até mesmo reações fisiológicas acontecem neste momento.

 

E foi assim que conheci a culinária japonesa.

 

Depois de alguns anos de resistências, e de ficar pensando  como as pessoas poderiam gostar tanto de um arroz gelado temperado enrolado em peixe cru ou algas, resolvi ceder aos apelos do meu namorado à época que dizia que eu não poderia afirmar não gostar de algo que sequer tinha provado.

 

Até então eu repetia categoricamente não ser preciso provar aquela coisa estranha para dizer que eu não gostava. Afinal, algo feito daquela forma não tinha como ser bom.

 

E assim resisti durante anos.

 

Até o dia em que resolvi experimentar, pois, além do meu namorado, muitos amigos também se deliciavam com a culinária japonesa, enquanto eu permanecia enraizada em meus conceitos pré-concebidos, comendo apenas alimentos devidamente cozidos.

 

E chegado o dia de, finalmente, experimentar o sushi, o ambiente estava  cuidadosamente preparado, a temperatura era agradável, o lugar confortável e as pessoas solícitas.

 

Sentia-me orgulhosa. Ora, quem não se sente bem quebrando barreiras?

 

Gostar ou não do sushi seria apenas uma consequência (muito embora minha torcida interna fosse toda para que eu gostasse).

 

O garçom coloca, então, em nossa mesa um lindo e decorado prato contendo diversas peças de comida japonesa.

 

Encorajada, vou direto ao sushi.

 

E não é que aquele pedaço de arroz com salmão tão diferente do que eu estava acostumada a comer me agradou? Encantada com a sensação proporcionada por aquele sushi, repeti  a experiência e comi mais um.

 

Desde então já não consigo mais contar quantos e quantos sushis me deliciaram. Tal qual verdadeira catequista, venho tentando convencer aqueles que não experimentaram sushi que se permitam viver essa experiência. Parece ter virado  missão. Sinto o mesmo quando, após ler um excelente livro,  passo a indicá-lo, incentivando as pessoas que também o leiam.

 

Assim também me parece ser com a mediação.

 

Nós, mediadores, que vivemos e respiramos mediação, que acreditamos no grande poder revolucionário e transformador do método, não poupamos esforços em querer ver a mediação sendo “experimentada” por cada vez mais pessoas e nos mais variados espaços.

 

Queremos que ela esteja acessível a todos.

 

Queremos que ela não cause desconforto nem incômodo a ninguém, aliás, muito pelo contrário, deve ela ser vista como solução de muitos conflitos.

 

Queremos, sobretudo, que aqueles que não a conheçam, tenham ao menos a chance de viver essa experiência.

 

Tal como catequistas, nós falamos de mediação com paixão e, por acreditarmos  nela como ferramenta de construção de cidadania e pacificação social, queremos vê-la se tornando, cada vez mais, algo concreto e natural  na sociedade.

 

Também pretendemos vê-la sendo realizada por pessoas capacitadas, em ambientes propícios e acolhedores, de tal forma que, aqueles que a provem ou a experimentem, tenham uma boa experiência, assim como foi a minha primeira vez comendo sushi.  

 

Porque não consigo nem imaginar como teria sido se, naquela noite, depois de anos de resistência, quando, finalmente, me propus a experimentar  sushi, o salmão tivesse vindo  estragado.

 

Certamente, diante dessa eventual experiência desastrosa, eu não teria dado uma segunda chance ao sushi!

 

 

 

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© 2017 por Ana Kucera