O potencial energético do conflito

 

Há cerca de um mês, ganhei do meu noivo – que sabe exatamente do que gosto – um livro cujas ideias queria ter escrito! De autoria do monge beneditino Anselm Grün, da Abadia Müsterschwarzach na Alemanha, o livro Conflitos: como suportar e resolver situações difíceis (Editora Vozes, 2016) afirma que os conflitos, a despeito de toda carga negativa que trazem, podem ser a expressão de uma relação cheia de vida, e que a sua ausência seria uma falta de interesse e indiferença perante o outro. Achei o seu ponto de vista tão interessante que resolvi escrever a respeito, já os convidando à leitura da fonte.  

 

Temos a tendência de associar o conflito à luta, à agressão, à violência, à briga, à guerra, dando-lhe sempre uma conotação negativa. O conflito, por isso, deveria ser evitado, negado. E a negação tem sempre algo a ver com o medo. Medo de lidar com ele, de encará-lo de frente. E esse medo é quase sempre tão destruidor quanto à escolha do modo errado de enfrentá-lo. Muitas pessoas enfrentam o conflito por meio da negação. Afirmam que ele não existe.  É mais fácil negar a existência de um conflito a ter de lidar com ele. Aparentemente dá menos trabalho. No entanto, o conflito também pode estar exatamente na negação de que ele existe. Imaginemos um casal que vivencia um conflito porque um dos cônjuges nega a existência de problemas, enquanto que o outro os enxerga. Se os dois não se unirem no intuito de resolvê-los, é bem provável que um dia a poeira varrida para debaixo do tapete vaze pelas bordas e contamine todo o ar, adoecendo todos da casa.

 

Outras pessoas, por medo do conflito, estão sempre dispostas a fazer de tudo para harmonizar: mais vale a aparência da harmonia a tornar público um conflito. Muitas famílias, organizações e grupos vivem aparentemente em harmonia. O legal é conciliar porque brigar é feio, pois mais vale um acordo ruim do que uma boa briga. Tudo vale assim em nome da harmonia ou de sua aparência, que mais afasta do que agrega. Mas a harmonia deve ser consequência do potencial transformar do conflito. Não é o estado natural das coisas.

 

A quem afirme que desde o nosso nascimento, enfrentamos conflitos: o conflito do desmame, o conflito da imposição de limites pelos pais, o conflito da puberdade, etc. Ou seja, a interação social é naturalmente conflituosa e o conflito é, por assim dizer, natural porque o homem é um ser essencialmente social. Depende e precisa do outro. E nesta interação, os conflitos surgem pelo simples fato de que cada um é um ser único e diferente.  Mas mesmo que imaginássemos um homem vivendo sozinho em uma ilha, sem interação com o outro, ele não se livraria de si mesmo e o conflito, aí, também existiria. Para o psiquiatra suíço Carl G. Jung, o ser humano é composto de contradições e das contradições surgem os conflitos com os quais cada indivíduo lida dentro de si. Quando não sabemos lidar com esses conflitos internos, o projetamos para fora, atingindo outras pessoas. Somente quando aprendemos a enfrentar os nossos conflitos internos, poderemos nos conciliar com o outro.

 

Se o conflito faz parte da vida, seja na interação com o outro ou com nós mesmos, negá-lo fará que algum órgão o expie e suporte a pressão, causando doenças. Negar o conflito é negar a si mesmo, negar a própria essência humana.

 

É necessário então encarar o conflito a partir da afirmação de sua existência. Não temos que ter medo dele. Antes de tudo, temos que aproveitar todo o potencial energético que ele carrega. Grün, ao analisar a etimologia da palavra conflito assim afirma (pág. 8): “A palavra ‘conflito’ provém do latim confligere (colidir, trombar). Quando pessoas se chocam umas com as outras, isso gera energia, de modo que os conflitos são sempre um sinal de há forças em jogo. E a ideia não é que eles nos paralisem nessa força. Mais do que isso, por meio da colisão, seria possível gerar uma nova energia. (...) Devemos, isso sim, observar o conflito sobriamente e nos perguntar: Qual potencial enérgico quer ser liberado por ele? Quais as oportunidades contidas nele?”

 

Todo conflito é uma oportunidade de mudança, de mudar as lentes dos nossos óculos, de nos tirarmos da inércia e da comodidade de nossas posições e visões sobre o mundo. Para isso, precisamos saber canalizar a energia que é produzida em cada conflito por meio da escolha do melhor modo de resolvê-lo, para que possamos aproveitar todo o potencial transformador que ele pode oferecer. 

 

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© 2017 por Ana Kucera