Confiança é um dos nomes do amor

12/12/2017

 

Há algum tempo li o livro Cartografia Sentimental escrito pela Sueli Rolnik. O conteúdo fugia muito ao meu repertório e foi uma grande descoberta, além de útil para a construção da minha tese de doutorado. Uma frase, entretanto, transbordou e me acompanha desde então: Confiança é um dos nomes do amor.

 

Confiar ou não em alguém é pressupor, em certo grau, o conhecimento sobre a pessoa, é se dispor a correr riscos quanto ao comportamento do outro, é estabelecer interações sem a preocupação ou a necessidade de se precaver, é uma pré-disposição para ações colaborativas.

 

Confiança compreende um estado que se propõe a promover relações mutuamente benéficas.

 

Há algumas semanas fui dar aula em uma cidade no interior do país. O voo atrasou muito. Pousamos à 01:30h da madrugada ao invés das 21:45h conforme previsto. Era uma noite fria e escura, apesar da primavera.

 

O local rapidamente foi esvaziado. Na saída havia apenas dois taxis que logo foram tripulados e se colocaram em movimento. Me dirigi ao motorista do segundo taxi e perguntei se ele sabia dizer se chegaria algum outro carro para atender aos passageiros daquele voo. Ele disse, sem transmitir muita certeza, que talvez sim. Me fixei no talvez e quase não ouvi o sim...

 

Enquanto pensava no que fazer, um senhor com cabelos, barba e bigodes coloridos como a neve, veio lentamente em minha direção. Cumprimentei-o com um suave boa noite que foi respondido acompanhado de um amável sorriso. Em seguida ele perguntou: será que chegarão taxis para nos levar daqui? Disse-lhe que sim, querendo transmitir a tranquilidade que certamente eu não tinha.

 

Por sorte em alguns minutos chegou um único taxi conduzido por um jovem motorista. Me dirigi ao veículo. Eu havia chegado primeiro. O motorista recolheu a minha mala e, enquanto eu me acomodava no banco de trás, sentia um enorme desconforto em deixar aquele senhor ali sem qualquer previsão de transporte.

 

Enquanto o jovem se organizava para partir, compartilhei com ele esse sentimento por não saber ao certo se haveria transporte para levar o senhor ao seu destino. Ele sugeriu que perguntássemos para onde ele estava indo e propôs que, se fossemos na mesma direção, seguíssemos juntos. Concordei. Parecia ser uma boa ideia. E assim ele fez.

 

O senhor, ao ser demandado, disse: você não pode me fazer essa pergunta sem que a senhora consinta. O taxista esclareceu que eu o havia autorizado a perguntar. Ele agradeceu, sentou-se no banco da frente e partimos.

 

O silêncio entrecortado por uma ou outra palavra foi rompido quando chegamos ao meu destino. Retirei da carteira o valor da corrida e, quando ia entregar ao motorista o senhor falou: não senhora, eu faço questão de pagar a corrida. Quero retribuir a sua gentileza. Olhei para o motorista e ele, com um sorriso gentil, pegou a minha mala e levou agilmente até a recepção do hotel. Agradeci e eles partiram em direção a rodoviária.

 

Essa experiência reverberou para a aula e pautou a compreensão do grupo sobre o valor da confiança no desempenho do mediador de conflitos e na produção de relações colaborativas.

 

Refletimos juntos e compreendemos todos que a confiança pode ser estabelecida sobre bases, formas e níveis diferentes, envolvendo pessoas, questões, circunstâncias e motivações distintas.

 

Enfatizamos sempre que a confiança é um valor potente para a Mediação, Facilitação de Diálogos e Negociações para a Criação de Consenso.

 

A confiança na mediação, no mediador, nos procedimentos, nas interações estabelecidas entre todos os envolvidos é o que permite expandir significativamente as relações cooperativas espontâneas.

 

O aspecto emocional impacta a possibilidade de um investimento em uma relação pautada na confiança: as crenças, os preconceitos, os filtros. O desafio dos profissionais que atuam em procedimentos autocompositivos é o de apoiar as pessoas em suas buscas por reativar, reconstruir ou reestabelecer a confiança perdida: um elemento facilitador que cria as bases para processos decisórios permeados por maior flexibilidade, colaboração e espaços para relações benéficas.

 

 

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© 2017 por Ana Kucera