© 2017 por Ana Kucera

Como não se envolver?

12/20/2017

 Era uma sexta-feira, quando a equipe responsável pela mediação aguardava as partes, sem conseguir imaginar o quão rico seria esse caso.

 

Um jovem casal chegava à mediação para tratar de questões relacionadas à convivência com as filhas gêmeas, que tinham no máximo seis meses.

 

Ao longo da sessão, ficou visível à equipe que o cenário era muito mais denso, complexo e subjetivo do que se podia supor.  Parecia envolver uma necessidade de aceitação do que havia se passado nos poucos anos de relacionando do ex casal. Nanda e Gabriel precisariam mergulhar um pouco na história vivida para entender como tudo aconteceu.

 

Eles se conheceram muito jovens e tinham pouquíssimo tempo de relacionamento quando foram vivenciar uma experiência fora do Brasil.

 

Gabriel deixou claro que sempre foi um cara desprendido. Ele não cogitava a hipótese de ver cerceada sua liberdade. Nanda, por sua vez, parecia conhecer e conviver naturalmente com os valores de Gabriel.

 

Eis que, na estadia fora do país, Nanda sofreu um pequeno acidente e precisou usar uma medicação. Depois de um tempo, ela descobriu que o remédio reduzia o efeito do anticoncepcional. Já imaginaram o desenrolar da estória, né? Ela se descobriu grávida.

 

Gabriel, que preservava sua liberdade acima de tudo, surtou: não queria saber de filho naquele momento de jeito nenhum. Ficou simplesmente indignado pelo fato de um combinado deles ter sido descumprido. 

 

Nanda não teve dúvida em nenhum momento e decidiu prosseguir com a gravidez. Porém, ficou muito magoada com a reação e postura de Gabriel.

 

Passados nove meses, nasceram as gêmeas, Nina e Alice. A relação entre o casal estava bem estremecida, mas Gabriel acompanhou de perto os acontecimentos, ainda que do jeito dele.

 

Quando Gabriel pegou as filhas nos braços, suas convicções lhe pareceram bem menos firmes do que de costume. Ficou absolutamente tomado pela emoção de ser pai, a ponto de ler livros e mais livros sobre o assunto.

 

 

Nanda, por sua vez, muito magoada, não estava conseguindo aceitar muito bem a aproximação de Gabriel. Até que, em dado momento, ao prantos, Gabriel pediu desculpas a ela por ter proposto a interrupção da gravidez. Surpreendeu a todos, com um agradecimento tocante pela vinda de Nina e Alice, maiores e melhores presentes de sua vida.

 

Nanda, que também deixou as lágrimas escorrerem, pareceu muito aliviada pelo depoimento de Gabriel.

 

Sem dúvida alguma, foi a mediação mais emocionante que eu já tinha participado.

 

Na época, eu era uma mediadora em formação. A fala dos mediandos me remeteu a um momento especial. Resultado: cai no choro junto com os dois.

 

Sinceramente, não sei se eles perceberam. Minha supervisora notou as lágrimas em meu rosto e tentou, muito discretamente, sugerir que eu acolhesse minha emoção e respirasse. Logo percebi que precisaríamos de uma pausa, então olhei para a minha parceira e pedi uns minutinhos para tomarmos um café, pois ela não tinha notado que estava totalmente contagiada com a emoção dos mediandos.

 

A mediação prosseguiu. Foram, mais ou menos, cinco encontros. Durante todo o processo, fiquei pensando se teria sido inadequado meu choro.

 

Isso me incomodou por muito tempo. Até que um dia ouvi de um renomado mediador a seguinte pérola: "se as partes estiverem cortando uma cebola, tudo bem nos emocionarmos"!

 

Aprendi que precisamos nos distanciar de nossos valores, de nossas experiências e focar na interação dos mediandos, mantendo a todo momento a conexão e o foco, por meio de muitas perguntas, para entender como se dá a dinâmica da relação.

 

Com esse caso, consegui viver na pele o que os mediandos estavam trazendo, o que foi muito produtivo para aprofundar a empatia e atuar de fato como facilitadora do diálogo entre eles.

 

Importante termos em mente a dinâmica de uma sessão de mediação, já que a escuta precisa ser ativa sem conter qualquer tipo de filtro ou juízo de valor. Isso porque, se impregnarmos o que estamos ouvindo com a nossa visão de mundo, além de não conseguirmos atuar como facilitadores, possivelmente nos distanciaremos do caso e perderemos aspectos importante para os mediandos. 

 

Bem, deixo aqui minha reflexão sobre o que ocorreu. E você, como vê essa questão?

 

Compartilhar no Facebook
Please reload

Siga
Procure por  assuntos:
Please reload

  • Facebook Social Icon