Diálogo entre uma professora e a aluna interessada...

Certo dia, após ministrar uma aula sobre métodos autocompositivos em uma universidade da região sudeste do país, uma aluna correu em minha direção e disse:

A: Gostei da sua aula, mas tenho que lhe dizer que fiquei em dúvida quanto a diferença entre a Mediação com múltiplas partes e o Círculo ou Processo Circular.

C: É uma dúvida frequente, mais do que você imagina.

A: Como fazer a diferenciação? Você pode me explicar?

C: Posso. Vejamos primeiro o que ambos podem ter em comum.

A: Ah, então, eu não estou tão errada assim, há coisas em comum?

C: Sim. Há várias coisas em comum. Tanto a Mediação quanto os Processos Circulares utilizam o diálogo como dispositivo para gerar mudanças e soluções. Contam com a participação de alguém que auxilia na conversa e todos assumem a responsabilidade pelos resultados. Nessas metodologias a autoria é uma construção conjunta e ambas são fundadas nos princípios da voluntariedade, autonomia da vontade para estar e permanecer e no desejo de resolver por meio de processos inclusivos e cooperativos que privilegiam a igualdade de oportunidade para falar e ser ouvido e para contribuir na construção de uma solução.

A: Então, o que diferencia a Mediação com múltiplas partes do Círculo? Aliás, eu ouvi dizer que a Mediação com múltiplas partes pode ser feita em formato de círculo de conversa...

C: Ah, então para você toda a conversa em formato geometricamente circular é um Processo Circular?

A: Sim... não é isso?

C: Não é bem assim. Há várias metodologias para facilitação de diálogo que se utilizam do formato circular, mas isso não faz delas um Processo Circular.

A: Então mesmo havendo um facilitador ou mediador e partes organizadas em formato circular, não será um Círculo?

C: Exatamente isso. Os Processos Circulares têm raízes nas práticas de povos nativos do Canadá e Estados Unidos. Algumas dessas práticas têm presença em outros locais ao redor do mundo...

A: O que os diferencia, então de outros círculos? Quando é um Processo Circular e quando é uma Mediação entre múltiplas partes em formato circular?

C: Há vários pontos que diferenciam as duas metodologias. Enquanto na Mediação o mediador é responsável pela condução do processo e as partes pela solução, no Processo Circular todos são corresponsáveis pelo processo e pela solução.

A: Como assim? E quem conduz o processo, não é responsável por ele?

C: No Círculo há uma corresponsabilidade quanto ao processo e a solução.

A: E como funciona?

C: O guardião ou facilitador cuida das pessoas e do ambiente. Ele inicia a conversa, mas não dirige as falas. O bastão faz circular as falas.

A: O bastão? Como assim?

C: Sim, o bastão de fala, é um objeto que circula de mão em mão, em sentido unidirecional convidando a falar, a oferecer silêncio ou simplesmente passar a vez. Enquanto um fala todos ouvem. O guardião de um círculo não diz quem vai falar, quem vai ouvir e quando. Ele também não oferece uma pauta. A conversa no Círculo surge de forma orgânica, a partir de valores construídos em consenso, um falando após o outro.

A: E funciona? Parece tão diferente...

C: Sim, funciona. O fato de o bastão circular de mão em mão garante que todos terão igual oportunidade para escolher entre falar ou passar. Isso gera equilíbrio e favorece as reflexões.

A: Interessante...

C: Sim. Muito!

A: Confesso que ainda tenho dificuldades. Não consigo diferenciar uma metodologia da outra.

C: Compreendo. Há outros pontos divergentes entre o Círculo e a Mediação com múltiplas partes.

A: E quais são?

C: Na Mediação há a participação das pessoas diretamente envolvidas no conflito e suas redes de apoio. No Círculo, além das pessoas diretamente envolvidas, há os indiretamente envolvidos e a comunidade, que traz demandas próprias. Na Mediação o foco é colocado na satisfação das partes diretamente envolvidas e restabelecimento das relações, beneficiando o contexto. Já no Círculo, o foco é colocado na reparação de eventuais danos e no atendimento das necessidades de todos, inclusive as de quem deu causa a ele. Entende-se que todo dano deve gerar o comprometimento com a reparação. Na Mediação há a construção de um acordo de autoria das partes (interpartes), no Círculo há um plano de trabalho e um acompanhamento (pós-círculo), para garantir o cumprimento do que foi acordado. Há forte preocupação em apoiar todas as pessoas para que consigam cumprir com os compromissos individual e coletivamente assumidos.

A: Interessante...

C: Sim. Muito.

A: Muito obrigada, professora!

C: Foi um prazer conversar contigo.

A: Até a próxima!

C: Até!

Ao longo do caminho para o aeroporto pensei em outras questões relacionadas com a temática levantada pela aluna. Certamente em um novo encontro teremos a oportunidade de conversar sobre elas.

Mediação com múltiplas partes, Processos Circulares, Círculo

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