© 2017 por Ana Kucera

Teresa e Fabrício eram amigos, amigos de verdade, para toda hora. Não passavam uma semana sem um bom encontro com café e broa, além da conversa afetuosa. Ela, professora de piano e ele, administrador de imóveis.

 

Como a confiança sempre deu o tom na amizade deles, um dia, após receber uma casinha, fruto da herança de seu pai, Teresa resolveu contratar os serviços de Fabrício. Depois de muito pensar, de uma longa conversa e várias xícaras de café, combinaram que a casinha seria disponibilizada no mercado imobiliário da cidade para aluguel, gerando para Teresa uma renda mensal. Porém, como ela não tinha muita prática neste assunto e esta era a “praia” de Fabrício, ela entregou, confiante e satisfeita, toda administração do imóvel ao amigo. Por conta da amizade, ele resolveu não cobrar nada pelos seus serviços, mas Teresa não aceitou e ela mesma decidiu destinar 10% do valor do aluguel a Fabrício pelo trabalho prestado.

 

A casinha foi alugada logo que entrou no mercado e tudo seguia bem por quase 8 meses. Teresa recebia o aluguel de forma integral e logo depositava os 10% que ela achava justo em retribuição aos serviços de Fabrício.

 

Após uma mudança significativa na economia da cidade, Fabrício começou a ter dificuldades com os negócios e, naquele mês, atrasou o repasse do aluguel. Teresa não reclamou, pois achou que era apenas uma falha pontual. Mas os episódios de atrasos foram se repetindo e, a cada mês, demorava mais e mais. Até que um dia, o atraso virou ausência. Não houve qualquer repasse dos valores do aluguel à Teresa naquele mês. Ela achou muito estranho, não era do feitio de Fabrício. E, assim como o dinheiro do aluguel, ele também não aparecia mais.

 

As mudanças na economia da cidade também afetaram as aulas de piano de Teresa e agora, mais do que nunca, os valores advindos da casinha deixada por seu pai eram imprescindíveis para sua manutenção.

 

Mas Fabrício continuava sumido, não atendia às ligações, não retornava os recados deixados na administradora e nunca mais apareceu para o café com broa.

 

Muito magoada e se sentido traída pelo amigo, Teresa procurou um advogado, colega comum de ambos, que, após ouvir atentamente todo relato, sugeriu tentar a retomada daquelas “boas conversas” entre eles, antes de qualquer medida judicial. No inicio, Teresa não queria, foi resistente, alegando que nada justificava o desaparecimento de Fabrício e a quebra da confiança entre eles. “Agora, só quero meu dinheiro e minha casinha de volta, já chega destes supostos amigos”, afirmava ela emocionada.

 

 

Com muita habilidade, o amigo advogado sensibilizou Teresa para uma tentativa, apenas uma tentativa de ouvir Fabrício. E assim foi feito, depois de alguns dias e diversos telefonemas, foi marcado um encontro.

 

O amigo advogado preparou uma linda mesa de café e, sabendo do cenário que envolvia aquela relação, convidou um amigo mediador para participar daquela conversa.

 

 

Teresa e Fabrício chegaram quase juntos. O desconforto de ambos era visível. Alguns minutos de conversa amena e as devidas apresentações. Ambos agradeceram, mas negaram o café. Ela começou contando como eram amigos e como aquela amizade foi importante em sua vida. Ele permanecia calado. Ela queria um pedido de desculpas, muito mais do que o dinheiro. Ele logo quis acertar todos os valores devidos. Ela ainda queria um pedido de desculpas.

 

Por mais de 2 horas permaneceram os 4 ali, reunidos em uma mesa de café com broa na tentativa de compreender o que havia acontecido e (re)construir aquela relação. Fabrício e Teresa conseguiram falar com honestidade e respeito. Aparentemente, ela entendeu a conduta dele e ele compreendeu a mágoa dela. Combinaram o pagamento dos valores dos aluguéis, devidamente corrigidos, e o repasse da administração do imóvel para outro profissional.

 

Comunicação, consenso e cordialidade foram alguns resultados alcançados.

 

Pode até parecer que esse teria sido um acordo perfeito, na medida em que os interesses e as necessidades de ambos foram contemplados.

 

Mesmo Teresa conseguindo compreender a fala de Fabrício, em seu íntimo, não era possível conter um imenso descontentamento, decepção e tristeza pela falta de transparência de seu tão querido amigo, uma vez que vinha colecionando desapontamentos da mesma natureza.

 

O fato do pedido de desculpas de Fabrício só ter aparecido ao final, contribuiu para cristalização das emoções mais profundas de Teresa, sem que fosse possível transmutá-las.

 

Em alguns momentos, Teresa se questionou se teria contribuído em alguma medida para a mudança daquela amizade, já que não era a primeira vez que experimentava tal sensação. Tais reflexões foram importantes para o desenrolar do caso e, principalmente, para evidenciar que não era mais a mediação o meio adequado para cuidar destes sentimentos, aquele espaço não daria conta de tratar da bagagem emocional que Teresa trazia.

 

Com o acordo construído, aquele foi o último café de Teresa e Fabrício juntos.  

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