Uma estória que fala de amor. E da falta dele também - Parte 2

Bem, desde do dia em que a estória de S. João, D. Marlene, da pequena Helena e de Luana foi contada e publicada aqui, tenho sido provocada e indagada sobre o final dessa linda e ao mesmo tempo, trágica estória de amor.

Curiosos com o desfecho dessa atípica audiência de adoção, arriscaram palpites, alguns me mandaram mensagens um pouco duras até, questionando o porque de tudo não ter sido resolvido logo a favor do casal Adotante e que cada um arcasse com as consequências de seus erros e atos do passado.

Dificil explicar a dificuldade do ser humano em exercitar a empatia e a falta de capacidade de não-julgar os outros sob a nossa perspectiva.

Para aqueles leitores que não tenham lido a primeira parte dessa estória, recomendo que a leiam ( aqui no blog mesmo) , para os que aguardaram paciente ou impacientemente o final da estória, vamos a ela !

 

 

 

 

 “ Pensamos todos juntos no que aconteceria se conseguíssemos promover um encontro entre Luana, S. João e D. Marlene. Como seria se eles se olhassem, se conhecessem e se ouvissem....

Empatia.

Enxergar o mundo sob a perspectiva do outro”.

 

A sugestão dada por um de nós para que todos tivessem a chance de se conhecer e estarem frente a frente fora então acolhida.

Antes, portanto, era preciso indagar a S. João e a D. Marlene o que eles pensavam sobre isso.

 

- “ Mas, é claro que nós queremos conhecer a Luana, Dra. Traga ela até nós sim “  ( A essa altura, nenhum de nós ali nos surpreendemos com essa resposta pois já havíamos conseguido enxergar o tamanho do coração daquele casal  )

 

Era, portanto, a vez de perguntar a Luana se ela também gostaria de conhecer o casal que há 5 anos fazia por Helena tudo aquilo que , da cadeia, ela não podia fazer. O casal que estava ali para formalizar a adoção de sua filha.

 

Coube ao Promotor de Justiça e a outra colega Defensora Pública irem até a carceragem do Fórum para falar com Luana,

 

Logo depois, eles retornam a sala de audiência dizendo que Luana estava envergonhada de vir ate eles , pois estava  com o uniforme  do  presidio e não queria que eles a conhecessem  desse jeito .( Sim,  preso também tem dignidade,  meus caros, preso sente vergonha, sente medo )

 

Mas, conseguiram convencê-la que a última coisa que S. João e D. Marlene reparariam era sua aparência ou na sua camisa verde e surrada da Seap. Aquele casal enxergava tudo com o coração e com as lentes do amor .

 

Convencida de que seria importante conhece -los, levamos o casal para uma espécie de ante- sala da sala de audiências e lá permanecemos por uma infinidade de segundos aguardando , então, a vinda da “ presa” .

 

Naquele pequeno espaço vi e presenciei uma das cenas mais tocantes e bonitas de toda a minha vida.

 

Tão logo  Luana apareceu no raio de visão do S. João  ele apressou os passos e praticamente correu de braços abertos na direção de Luana, que,  aparentemente,  ainda assustada,  retribuiu aquele imenso abraço -  um abraço apertado, reconfortante e  generoso de alguém que acabara de conhecer .

 

Com um sorriso que só os que sabem amar possuem, S. João se dirigiu a Luana e disse:

 

“- O que faltou para você minha filha, foi isso aqui, foi abraço . Faltou amor na sua vida. Mas agora isso acabou . Você não está mais sozinha. “

 

Enquanto isso D. Marlene que já não conseguia conter suas lágrimas  dirigiu- se  até os dois para completar aquele grande abraço , 

 

Duas defensoras, um promotor e uma Juíza contemplavam aquela cena, extremamente emocionados e com lágrimas nos olhos , completamente desnorteados, não sabiam  nem por onde começar nem tampouco  terminar.

Como continuar uma audiência depois de presenciarmos tudo aquilo?

O que escrever na assentada da audiência?

 

O que acontecera ali só nós sabíamos.  Só nós sentíamos .

Uma explosão de amor, de compaixão, de generosidade e de perdão.

É disso que estamos falando.

 

Voltamos ainda anestesiados aos nossos lugares na sala de audiência, quando alguém bate  à porta. Era a madrinha de Helena que a buscara na escola e precisava deixa - la com seus pais .

Helena entra . Sorri e começa a contar sobre o se dia na escola, aparentemente como deve fazer todos os dias  .

 

Mas será que aguentaríamos ainda mais essa ?

Presenciar o (re)encontro de mãe biológica e filha

 

Luana olhava fixamente para Helena, talvez imaginando como seria viver ao lado dela, acompanhar os seus passos na escola, como teria sido sua vida ao lado de Helena.

 

D. Marlene no alto de sua generosidade pede para que helena sente ao ladinho de Luana  a quem apresenta como sua amiga .

 

Mais alguns minutos de contemplação, deixamos Helena desenhando e carimbando num papel, e nos entreolhamos perguntando :

E agora ?

O que faremos ?

 

Uma sensação de que qualquer decisão que tomássemos seria um desastre para uma das partes tomava conta de nós.

É um daqueles momentos em que nos sentimos vulneráveis diante dos acontecimentos da vida, como uma sentença, uma lei poderia salvar ou destruir  aquela “ família”.   

 

Como agir diante do que víamos ali bem na nossa frente?

Seria mesmo justo com todos eles que nós agíssemos como se nada daquilo tivesse acontecido. Não, certamente que não.

 

Há aqueles que acreditam fielmente na existência de Deus, há também aqueles que negam a sua existência e tem também aqueles que tem suas dúvidas.

O que posso afirmar é que se Ele existe mesmo , passou algumas horas do seu dia ali com a gente , dentro daquela sala de audiências.

Eu, cheguei a pedir a Ele, quase suplicando que nos desse uma luz. Tamanha a sensação de impotência.

Coincidência ou não, logo em seguida me veio uma palavrinha em mente.

 

MULTIPARENTALIDADE

 

Dei um pulo na cadeira , com a sensação de que tinha acabado de  ganhar na loteria e sugeri ao Promotor e a Juíza que Helena tivesse duas mães e um pai . Todos sairiam vencedores, principalmente Helena.

Aceita a sugestão, aliviados precisávamos ainda ter a aceitação de todos os envolvidos.

Esbanjando mais uma vez um largo e generoso sorriso , D. Marlene e S. João respondem:

- “ Mas , é claro que aceitamos . Ela também é mãe ué. Deixa o nomezinho dela na certidão sim”

Nos dirigimos a Luana que, 

 

ainda sem acreditar, respondeu:

 

“ Esse é o final mais feliz que essa estória podia ter tido. Ganhei minha filha de volta, ganhei um pai e uma mãe também “

 

E alguém duvida disso ? 

 

 

 

 

** Essa foto dessa linda família foi tirada no último dia 22 de Agosto, quando gentilmente a Juíza responsável pelo caso organizou uma bela cerimônia com direito a bolo e salgadinhos para fazer a entrega da nova certidão de Helena que oficialmente agora é filha de Luana, Marlene e João.

***Essa foto foi publicada com a autorização expressa de todos os envolvidos e olhando para os sorrisos acho que eu nem preciso dizer mais nada .

 

 

Compartilhar no Facebook
Please reload

Siga
Procure por  assuntos:
Please reload

  • Facebook Social Icon

© 2017 por Ana Kucera