PRESERVANDO OS FILHOS DURANTE O DIVÓRCIO - Parte 2

10/05/2018

 

 

No Post de 17 de abril de 2018 relatei um caso onde os filhos foram severamente envolvidos nos conflitos entre os pais durante o divórcio litigioso destes. Eram vários processos judiciais quando o ex-casal conjugal chegou à Mediação, em uma Câmara privada, recomendada por um amigo do ex-marido. A Mediação trouxe a oportunidade de dialogo e a possibilidade de um novo olhar para como os filhos estavam lidando com essa situação e os reflexos em suas vidas, além do questionar sobre os interesses e as necessidades legítimas de seus participantes.

 

Em um divórcio muitos são os desafios que as crianças e adolescentes têm que lidar. Eles podem viver uma diversidade de sentimentos, tais como tristeza, raiva, culpa e ansiedade, além das inúmeras mudanças que se impõem. Não conviverão com ambos os pais na mesma casa, sua rotina sofrerá modificações, algumas vezes precisarão mudar de casa e de escola. Além de administrarem suas próprias questões irão lidar com os pais, que por sua vez estão manejando os próprios desafios e emoções.  

 

No nosso caso, Lucas, de 12 anos, estava apresentando um comportamento agressivo em paralelo a uma baixa de rendimento na escola, e José, de 6 anos, vinha bastante tristonho. Antes da Mediação, Lucia estava muito envolvida com seus sentimentos e mágoas em relação ao João, com grande dificuldade para elaborar o término do seu casamento e, com isso, com menor disponibilidade para olhar e lidar com as questões emocionais dos filhos. Tinha ciúmes deles com o pai e sua atual companheira, queria punir João tentando que os filhos gostassem menos dele. Para tal falava mal do pai, enviava recados desaforados com ameaças, perguntava sobre a vida de João, enfim, envolveu em demasia os filhos sem dimensionar as repercussões emocionais desses seus comportamentos.

 

João, por sua vez, também estava menos disponível para os filhos. Queria estar com os mesmos, mas estava emocionalmente envolvido e “ocupado” com o seu novo relacionamento. A estratégia que lhe pareceu melhor foi afastar-se dos ataques de Lucia, mas não dimensionando o quanto a sua ausência deixava os filhos tristes e inseguros.

 

Lucia, no início da Mediação, afirmou que José não queria ir para a casa do pai e que sempre voltava falando mal da companheira de João. Durante uma das nossas reuniões pode refletir sobre o conflito de lealdade que os filhos estavam vivenciando. Como que filhos tão leais poderiam sentir-se alegres e falar bem da casa do pai, se sentiam que tal atitude traria um sofrimento maior para a mãe? Essa sessão foi de extrema importância para Lucia compreender os sentimentos e reações do Lucas e do José e iniciar uma mudança de atitude.

 

Um divórcio não necessariamente será um período negativo para os filhos se for bem conduzido pelos pais. Os adultos devem tentar ao máximo preservá-los de seus conflitos. É fundamental que as crianças e adolescentes sintam que seus pais têm uma boa comunicação sobre eles, sem fazê-los de mensageiros e/ou informantes. Nenhum filho se sente bem ouvindo sua mãe falar mal do pai ou vice-versa. Precisam se sentir com liberdade para amar e conviver com ambos e suas famílias estendidas.

 

Se durante o divórcio o par parental consegue passar segurança e estabilidade, sem sobrecarregar os filhos com seus sentimentos, liberando-os para ir e vir de suas “casas”, essa fase tenderá a ser muito mais tranquila.

 

A Mediação é um instrumento extremamente útil para os casais em divórcio lidarem de forma positiva com a complexidade de temas e questões envolvidas nesse processo. No que diz respeito aos filhos, possibilita que suas vozes tornem-se presentes, e que suas necessidades sejam asseguradas.

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© 2017 por Ana Kucera