Estamos preparados para o amor?

 

Hoje vamos falar sobre um assunto que é conversa frequente em rodas de amigos: os relacionamentos amorosos.

 

Mas o que isso tem a ver com mediação? Tudo! Todo relacionamento seja ele amoroso ou não, envolve duas ou mais pessoas, que precisam lidar com interesses, necessidades, expectativas, visões de mundo e experiências de todos que direta e indiretamente dele participam. Ou seja, diversos elementos que aprofundamos quando estudamos formas de resolução de conflitos por meio do diálogo. E talvez, o que mais falte nas relações é exatamente à disposição para o diálogo, para a comunicação e para a empatia.

 

Há muito já alertava o sociólogo Zygmunt Bauman sobre a liquidez do amor e a fragilidade dos vínculos na modernidade. O conceito do amor líquido desenvolvido por Bauman – que não vamos por ora aprofundar – parte da ideia de que hoje estabelecemos mais conexões do que propriamente relacionamentos, pois os vínculos são extremamente superficiais, como se escorressem entre os dedos.

 

O autor utiliza o termo "conexão" para caracterizar os vínculos interpessoais em analogia aos relacionamentos travados em sites de encontros. Em suas pesquisas ele percebeu que o grande atrativo dos sites de relacionamento está na facilidade de esquecer o outro, ou seja, de se desconectar.

 

No ambiente virtual, o relacionamento se torna frágil, uma mera conexão, nova forma vigente de se relacionar na chamada modernidade líquida. Todos podem, sem a menor pressão ou responsabilidade, trocar seus parceiros por outros melhores ou mais interessantes. Para Bauman, quando a qualidade das relações diminui, a tendência é tentar recompensá-la com uma quantidade maior de parceiros.

 

Pois bem. Esse é o cenário com o qual precisamos lidar, seja como mediadores, seja como parte integrante desta teia de vínculos frágeis. Como convidar o outro à empatia, à comunicação e à coresponsabilidade quando não há interesse em se relacionar verdadeiramente? É possível remar contra a maré? É possível estabelecer vínculos mais fortes e profundos na modernidade líquida de Bauman?

 

Quantas pessoas já não se viram em relacionamentos amorosos que pareciam contos de fadas e que, uma semana depois, abruptamente, acabam porque uma das duas simplesmente some? Sim. Ela some porque reproduz os relacionamentos virtuais nos quais as pessoas só precisam apertar um botão para se desconectar.

 

Para evitar que o parceiro se desconecte na vida real, às vezes acabamos por corroborar com as características do amor líquido. Fingimos desinteresse, não demonstramos muita emoção, tornamo-nos individualistas. Ou seja, fazemos o chamado “joguinho”.

 

Parece que quando expressamos o que de fato estamos sentido, como por exemplo, o desejo de querer encontrar com a pessoa novamente, estamos expressando os nossos interesses. Mas isso pode assustar. Mas por que assusta? É super natural querermos mais daquilo que nos agrada. Mas será natural e aceitável para pessoas que vivem na modernidade líquida? Será que as pessoas conseguirão abrir mão das vantagens dos relacionamentos superficiais, passageiros e descompromissados?

 

Ao reproduzirmos as conexões virtuais no mundo real, tudo se torna mais rápido e superficial. Desaprendemos a nos relacionar verdadeiramente com o outro. E não nos responsabilizamos. Não sabemos conversar, temos dificuldades de expressar sentimentos. Terreno fértil para desentendimentos e conflitos. O problema é que hoje, quando se trata de relacionamento amoroso, não dá nem tempo de termos uma “DR” porque muitos terminam antes de começarem.

 

Para sairmos do ciclo vicioso das relações superficiais, se gostamos, se a experiência foi boa, é preciso falar, dizer, mesmo que assuste. Se não gostou, também diga. Mas saiba dizer. A comunicação não violenta também serve para relacionamentos amorosos.

 

Assim, quando nos relacionamos, precisamos nos lembrar que a outra pessoa é um somatório de suas experiências de vida, então, às vezes, não somos nós que estamos configurando mal nossas expectativas. Talvez o nosso comportamento, ainda que verdadeiro, pode despertar no outro algo que não lhe traga boas recordações ou que atinja suas neuroses.

 

Para não cairmos nas armadilhas da sociedade líquida, teremos sempre que agir de acordo com a nossa verdade ao expressar nossos interesses e necessidades, sempre com cuidado e empatia. Somente assim não iremos no futuro ficar arrependidos de não termos tentado. E tudo bem caso a outra pessoa não corresponda ou sequer entenda seus sentimentos. Compreenda que pode ser algo que está relacionado à história de vida dela. Não podemos sofrer pelo que é do outro. Se conseguirmos dar conta do que é nosso, pode ser um maravilhoso início de autoconhecimento. E o autoconhecimento é o início do amor próprio. Bauman afirmava que na sociedade líquida falta amor próprio. E aquele que não se ama, não consegue ser amado, não consegue amar e não se considera digno do amor.  

 

Sim, as relações estão muito efêmeras e as emoções devem ser imediatas e consumidas. Queremos, a qualquer custo, sentir uma explosão de sentimentos no coração, como fogos de artifícios do réveillon de Copacabana. Mas os fogos terminam. Foi lindo. E ponto. E partimos para outras emoções, com outros parceiros porque queremos consumir momentos, como se fossem produtos.

 

O amor é silencioso, Não é produto. Não desaparece quando consumido, não estraga, não vem com defeito.

 

Será que estamos preparados para os verdadeiros encontros, aqueles que tocam mais profundamente em quem nós somos, como levamos a vida e de tudo que precisaremos compatibilizar para atender nossos interesses e necessidade e o do outro? Será que estamos prontos para a coresponsabilidade? Será que estamos prontos para enfrentarmos os conflitos juntos?

 

Além disso, estamos com paciência e tolerância para compreender o universo do outro de maneira a agir se respeitando e considerando o momento de cada um?

 

Conseguiremos sobreviver dentro da sociedade da modernidade líquida?

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© 2017 por Ana Kucera