A dura tarefa de desfazer o “sim” com você mesmo e chegar ao sim com seu co-mediador

02/02/2019

 

Há alguns anos ouvi de uma reconhecida mediadora australiana em um discurso na CCI em Paris que para mediar era necessário ter cabelos brancos. Nem preciso detalhar a minha frustração de alguém enamorado pelo métier, bem no auge de seus vinte e poucos anos ao ouvir aquela dura constatação. E, especialmente, por vir de alguém razoável com um baita background justamente naquilo que eu havia escolhido como meu trabalho, ao menos até que meus próprios primeiros cabelos brancos aparecessem.

 

Se ouvisse o mesmo discurso hoje certamente o sentimento de empatia e pertinência seria maior😉. Alguns cabelos brancos não só já apareceram, como parte da segurança deles derivada também. Ufa! No mínimo não me sentiria tão excluída daquele grupo tão seleto de mediadores reais. Na minha cabeça essa definição era alcançada por aqueles que conseguissem fazer com que alguém pagasse por seus serviços como mediador, o que não é uma tarefa fácil.

 

E, poxa, justamente naquele momento que precisamos de aprovação, vem alguém dizer que o que eu almejava era impossível?! É verdade que já possuía alguma experiência em mediação em tribunais em diferentes países e uma pequena história e rede de relações sólidas que me orgulhavam. O que me afligia era o medo que ecoava dessa afirmação. O meu medo de “não dar certo” que, naquele momento, se convertia em um certo despeito pelo que havia sido dito.  A negação é sempre um caminho tentador.

 

Era a provocação que um(a) jovem vivaz, persistente e eventualmente com uma imaturidade “quase sadia” precisava para convertê-la em hipótese a ser infirmada – o quanto antes. Hoje penso que, talvez, esse efeito fosse o real o intuito do discurso. É bem provável, aliás, porque na média, a audiência era de tantos outros como eu, jovens. Talvez não. De um jeito ou de outro, fica a minha gratidão pelo impulso da caça, a aceleração de batimentos e força de vontade que ela me provocou.

 

De fato, demonstrar que um profissional jovem poderia ter êxito na área passou a ser meu maior objetivo (e meu maior medo), minha escalada particular ao Himalaia ou minha corrida de cem metros. De lá para cá, alguns anos e muitas mediações depois, não posso me queixar do aprendizado e das tantas oportunidades profissionais que surgiram em meu caminho. Especialmente porque percebi que as relações de confiança que construímos (conosco e com os outros), o comprometimento e bastante trabalho duro ajudam a sopesar boa parte das dificuldades inerentes ao frescor da pouca idade. 

 

Detalho essa história como o caminho de alguém que tinha a firme certeza de que havia logrado invalidar a afirmação daquele discurso, daquela mediadora, daquele frustrante dia. E que não nos ouçam os mediadores, mas é tão prazeroso demonstrar que vencemos, temos razão, não é? Digam que sim, porquanto é por essas e por outras que temos espaço para trabalhar. Não fosse assim, muitos conflitos nem surgiriam ou seriam facilmente resolvidos entre as partes diretamente e sem participação de terceiros.

 

Ao menos na minha cabeça eu havia vencido. E isso bastava. Afinal, ainda era jovem e pagava minhas contas com meu trabalho em processos negociais.

 

Nesse período, surge uma outra “certeza” de que, ao menos no mercado privado, era raro e – no meu caso – difícil trabalhar em co-mediação.  Essa conclusão veio sem provocação, talvez porque ouvir perspectivas diferentes não me afetava da mesma forma. Voilà o que o tempo ensina...

 

Em síntese: era jovem, a mediação me satisfazia profissionalmente e evitava a co-mediação, certa de que não agregaria no processo ou nos resultados. Por trás dessa segunda certeza, existiam – e continuam a existir – sérias indagações como:

 

E se...

 

meu co-mediador quebrasse a confidencialidade?

Foge ao meu controle saber o que ele faz da porta para fora. Já é difícil controlar a si próprio, imagina ao outro!...

 

E se...

 

meu co-mediador utilizar técnicas com as quais eu não concorde?

meu co-mediador não for uma pessoa séria?

meu co-mediador não for um profissional preparado?

 

E se, se, se...

 

É bem verdade que as perguntas não deixaram de existir, apesar de agora, quase sempre, caminharem ao lado de respostas tranquilizadoras ou incomodarem menos quando a intuição trata de apaziguar.

 

Como bem disse a mediadora do discurso.... (lembram, aquela a quem eu me orgulhava de ter “provado” errada!) a experiência aporta atributos não inatos. O que descobri, com o tempo, é que cada um, cada profissional alcançará predicados diferentes advindos do passar do tempo, da prática e da vida.

 

No meu caso, aprendi que posso mudar de opinião.

 

Aprendi que verdades co-existem. Perfis profissionais diferentes também (e muito bem!).

 

Aprendi que aquela mediadora, aquele discurso...(vejam vocês, que revanche a dela!) passaram a fazer sentido nos últimos anos. No meu jovem caminho, fui – felizmente – levada a trabalhar em co-mediação com outros profissionais que me provaram errada nas duas premissas, naquelas duas certezas.

 

Sim, a mediadora estava certa. Hoje percebo que os cabelos brancos (e até a falta deles para alguns), em regra, conferem serenidade e astúcia valiosas na compreensão dos conflitos e na percepção de possíveis barreiras ao acordo.

 

Sim, eu também estava errada quanto à co-mediação. Recentes trabalhos têm demonstrado isso claramente. Entre outras surpresas, encontrei em uma pessoa específica um grande parceiro e professor. Trabalhar com ele permite a integração harmônica de energias totalmente diferentes das minhas, mas que fluem naturalmente.  Esse movimento de troca e complemento, contrastante e equilibrado, yin e yang...é uma riqueza que pode e deve ser utilizada e estimulada na mediação e em nosso aprendizado profissional e pessoal.

 

Mas essa diversidade de gênero, idade, formação profissional de origem e tantas outras é tema para um outro dia e ao qual tenho me dedicado entusiasmadamente.  Por hoje, eu queria mesmo era dizer, de novo, que a mediadora australiana estava, sim, certa.

 

Só não completa. Ou vocês acham que eu realmente desisti de “vencer” a tese? Há dificuldades que a maturidade supre, outras que não. Por ora ainda não cheguei lá, não completamente. Mas fato é que os cabelos brancos que hoje me acompanham em mediação me permitem compreendê-la de uma outra perspectiva, tão interessante e relevante quanto o frescor e a vivacidade da pouca idade.

 

Ao acolher a co-mediação com alguém diferente, eu percebo pelo que aprendo e vejo que ela estava certa. Eu também estava.

 

P.S. Post dedicado ao meu constante co-mediador nos últimos dois anos, em razão da paciência e confiança que tem de co-mediar ao meu lado.

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