© 2017 por Ana Kucera

SER... mediador

Informação prévia á leitura – se desejar ler este texto que se segue de uma forma diferente, onde vários dos seus sentidos estão ativos, comece por decidir que quer realmente ler e conectar-se com este texto, e coloque-se num local propício para leitura. Pode também se desejar clicar neste link para que ouvir esta música de fundo enquanto lê https://soundcloud.com/melodality/hope-in-our-lives, e pode também ir buscar a sua bebida preferida, e relaxar, e conectar-se consigo mesmo, sentir a sua respiração, e então começar a ler as palavras que escrevi para si, caro leitor/a.

 

Aos 25 anos tive a sorte ter um trabalho onde geria mais de 150 pessoas numa das maiores empresas multinacionais do mundo. E como diretora deste grupo eu tinha reuniões com supervisores, com todo o departamento, eu ouvia ideias e conectava com os colaboradores. Como diretora do departamento, eu avaliava cada membro todos os anos para decidir dos bônus ou aumento de salário.

 

E rapidamente consegui perceber algo quase intuitivamente – nem sempre os membros mais inteligentes eram os que realizavam o trabalho mais significativo para o departamento.

 

Alguns dos melhores empregados não tinham um QI excelente e outros com um QI excelente não estavam indo muito bem. Eu tinha a certeza de que a companhia estava a dar todos os meios para que os empregados realizassem corretamente o trabalho deles e a todos eram dadas as mesmas oportunidades de aprendizagem. Ou seja, cada empregado poderia ter sucesso caso se dedicasse tanto tempo quanto necessário.

 

Esta experiência profissional desde muito cedo na minha vida fez-me perceber e vivenciar que inteligência não é o único ingrediente de sucesso – tanto pessoal como profissional.

 

Depois de vários anos como diretora desta equipa, concluí que o que precisamos na gestão da equipa (seja ela no trabalho, em casa com nossos maridos e filhos, na nossa atividade pro-Bono ou na mediação) é uma melhor compreensão dos membros dessa equipa, uma conexão real, autêntica, genuína, verdadeira com as pessoas. Um sentido do CARE (I CARE, eu me preocupo) com cada uma dessas pessoas, em que como líderes desejamos efetivamente o melhor para elas.

 

Perceber quem são estas pessoas que estamos ou com quem conectamos regularmente, o que as move, por qual razão algumas têm sucesso e nós as sentimos prontas a remover montanhas enquanto outras simplesmente sentimos fazendo as coisas?

 

A psicóloga Angela DuckWorth nos seus estudos indica que a boa aparência, a saúde física, o QI e a inteligência social não foram os fatores que várias pesquisas apontaram para o sucesso. O que estes estudos apontam como fator de sucesso, descreve a psicóloga, é a garra que ela descreve como a paixão e a perseverança em objetivos de longíssimo prazo. Ela diz:

 

Garra é ter resistência. Garra é agarrar o seu futuro, dia após dia, não apenas durante uma semana, não apenas durante um mês, mas durante anos, e trabalhar bastante para tornar esse futuro real. Garra é ver a vida como uma maratona, não como uma simples corrida.

 

Fantástica pesquisa! Tinha agora uma base mais científica para a minha intuição de tantos anos. Onde a inteligência não era o único ingrediente de sucesso, e sim podia ver nas pessoas de sucesso que me rodeavam essa garra feita de paixão e perseverança.

 

A paixão é uma emoção convincente. Isso pode significar emoções positivas, como o amor, assim como emoções negativas, como o ódio. Para os que me conhecem melhor e que tiveram o pesadelo? sorte? de trabalhar comigo ou de conviver ao meu lado… eu não sei se tenho sucesso, mas eu sei que tenho esses dois componentes da garra: essa paixão e essa perseverança.

 

Claro, não há lugar para paixão em sua vida, a menos que você encontre algo em que possa se apaixonar.

 

Quando comecei as minhas viagens pelo Brasil e perguntava às pessoas que ia conhecendo “Porque escolheu aprender sobre mediação?” a resposta quase sempre era “Eu me apaixonei...”. Comecei a brincar com isso quando alguém me fazia a mesma pergunta e eu respondia “Não tem nada a ver com paixão! Eu cheguei à mediação por acaso, pois queria continuar a estudar depois de finalizar meu curso de direito e um curso de mediação ia abrir no dia seguinte. Fui, inscrevi-me e comecei. E assim foi. Acaso sim, paixão não!”

 

Como hoje, aqui, o desafio lançado é justamente partilhar convosco trazendo uma reflexão sobre algum tema ligado à mediação...perguntei a mim mesma, o que é este algo que hoje me faz realmente conectar com a mediação? Que me faz, sim (devo confessar) ser apaixonada pelo tema? Aqui seguem as minhas reflexões, pois acredito que muitas delas tenham a ver com “paixões” que fazem alguém ser mediador/a.

 

 

Sou apaixonada por me conectar com pessoas – conseguir esta conexão, conseguir rir e brincar com elas – conseguir ouvir o que elas têm para dizer, pessoas parecidas comigo, pessoas diferentes de mim, pessoas que poderei amar, ajudar, compreender e de quem poderei receber o amor, as ideias, a conexão e  a compaixão. Pessoas a quem darei energia e receberei algo, ou não.

 

Esta paixão move a minha vida e faz com que nos últimos 10 anos tenha vivido em todos os continentes com a minha família. Eu sou apaixonada por ajudar as pessoas a pensar, e, na mediação, eu realmente posso fazer minha paixão se tornar realidade e ter um propósito no que faço.

 

Sou apaixonada por aprender - conseguir perceber, explorar, aplicar o conhecimento para conjuntamente com essas pessoas progredir nos projetos, nas ideias, perceber o mundo... Sou apaixonada por rir com o outro.

 

Sou apaixonada pela tecnologia e como ela transforma o nosso mundo. Como ela mudará o modo como nos relacionamos e como resolvemos os nossos conflitos. Não sei se inventei ou li esta frase, mas acredito que "a questão não é mais se um dia você vai mediar ou arbitrar online ou não. É só uma questão de quando e quão bem".

 

Sou apaixonada por ajudar mulheres a viverem vidas mais libertas de tantos shoulds (eu devo) e a serem mais autoconfiantes. Sou apaixonada por ler. Sou apaixonada pela cultura e o que ela nos ensina. Sou apaixonada por facilitar a descoberta no outro daquilo que ele tem de melhor. Sou apaixonada por conseguir energizar o outro, fazer renascer a energia que ele tem dentro dele.

 

Sou apaixonada pelo respeito das diferenças e de como podemos juntos transformar o mundo com este conceito simples de – não ser preciso concordar, e sim compreender aquilo que não concordamos e respeitar, ver como podemos avançar assim. Sou apaixonada pela arte de aceitar: o outro, os seus pensamentos, a mim, os meus erros, meus sucessos e integrar o que aceitei para tentar ser uma melhor pessoa. Sou apaixonada por projetos transformadores e por realizar. Sou apaixonada por aqueles que consigo trazer comigo nesses projetos e que consigo estabelecer uma conexão emocional, onde nos podemos relacionar mutuamente e criar autenticidade, gerar confiança, estimular o sentido de inovação, de progresso. Sou apaixonada por pessoas intelectualmente curiosas, pelo que elas me ensinam e me abrem novos horizontes.

 

Paixão para mim é energia - que me mantém caminhando, que me mantém com propósito na minha vida, com felicidade e com excitação.

 

A paixão é esta força poderosa na realização de qualquer coisa para a qual fixo minha mente, com perseverança para experimentar a vida na forma mais extensa possível.  A paixão é também para mim esta força de aceitação, de poder dizer não sei sem me sentir menos alguma coisa.

 

Lembro-me sempre do conselho que recebi de Bill Gates quando numa reunião de trabalho eu queria absolutamente ter resultados mais rápidos num projeto que eu estava apaixonadíssima – ele respondeu: "Seja paciente, as coisas levam tempo". E continuou "não importa o quanto de talento ou de esforço ou de paixão você põe - as coisas levam tempo, você não pode produzir um bebê em um mês, engravidando nove mulheres".

 

E assim eu aprendi e continuo cada dia a aprender, a combinar as minhas paixões com uma boa dose de paciência! E assim eu vou, com as minhas imperfeições e com as minhas paixões, sendo mulher, mãe, esposa, amiga, mediadora.

 

E você? Quais são as suas paixões que o fazem SER mediador/a?

 

"Todo grande sonho começa com um sonhador. Lembre-se sempre, você tem dentro de você a força, a paciência e a paixão para alcançar as estrelas para mudar o mundo." -Harriet Tubman

 

"Você não pode fingir paixão." -Barbara Corcoran

 

*Ana Maria Maia Gonçalves co-projeta e co-lidera processos de desenvolvimento e soluções de aprendizado para um mix diversificado de pessoas; integra diferentes funções como consultora, especialista em resolução de conflitos, facilitadora e coach. No mundo das organizações sem fins lucrativos, tem um papel ativo nos países lusófonos com a associação que fundou, o ICFML. Faz parcerias com indivíduos e organizações que acreditam na mediação como uma ferramenta para promover a paz na sociedade e promove programas que permitem que os mediadores de língua portuguesa desenvolvam sua prática ao nível dos padrões internacionais em sua própria língua.

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