© 2017 por Ana Kucera

Ser Mediador ou Estar Mediador?

03/17/2019

Esse texto traz uma honesta e pessoal reflexão acerca da Mediação enquanto virtude pessoal de pacificação, percebida dessa forma em nós, mediadores, pelas pessoas que nos cercam.

 

Ser mediador ou estar mediador? O que de fato somos ou demonstramos ser para os nossos, aqueles que nos conhecem mais intimamente, como familiares e amigos?

 

Estas são questões que sempre busco fazer para mim mesma enquanto uma pessoa que procura ser alguém melhor a cada dia. Todavia, as respostas não vêm só de mim. Claro que preciso primeiro saber quem eu sou ou quem eu pretendo ser antes de qualquer coisa ou de considerar qualquer opinião a meu respeito, porém, sabemos o quão importante dentro da dinâmica das necessidades é pertencermos a grupos e sermos aceitos. Por isso, nem que seja lá no fundo, nos é tão caro saber como somos vistos ou interpretados. Afinal, grande parte dos conflitos comunicacionais estão exatamente no âmbito das interpretações, que podem levar a julgamentos e consequentemente sentimentos de injustiça. E, quando nos sentimos injustiçados, como lidamos? Somos reativos ou proativos? Ou, em que contexto reagimos e em que contexto co-construímos?

 

Nossa capacidade reflexiva muitas vezes vai além, modestamente falando, porque nos traz o peso da responsabilidade que a consciência da consciência nos impele por lidarmos com autoconhecimento. Auxiliamos o tempo todo as pessoas a se perceberem e a perceberem o outro para gerar empatia e, consequentemente, oportunizar que elas se permitam atravessar pelas razões umas das outras através do diálogo assertivo, que amplia os discursos posicionais e abrem caminhos para a alteridade. Logo, tudo isso pressupõe que também saberemos utilizar dessas habilidades a nosso favor nos nossos contextos de conflito.

 

Devo admitir que para mim não é fácil equilibrar minhas dicotomias ao ser sanguínea e ponderada; ser alegre e séria; ser muito crítica e ter paciência; ser verdadeira e também irônica; nascer brasileira com “padrões de jeitinho” e manter uma ética cristã ilibada para todas as minhas ações; ser gente boa sempre - não só quando convém - e ter senso de justiça aguçado; conviver em ambientes de trato cordial e ser autêntica para me posicionar falando o que penso, o que nem sempre agrada, mas viver utopicamente desejando agradar a todos.

 

Meu Deus... é desafiador demais ser gente! Há aqueles que simplesmente abstraem e relevam, mas não consigo ser assim. Sinto-me vocacionada a ajudar a melhorar o mundo, mesmo que sendo o beija-flor da fábula tentando apagar o incêndio. Então porque eu também taco lenha na fogueira quando estou em conflito? Porque muitas vezes não dou o boi pra entrar pra briga, mas se entro dou uma boiada para não sair dela? Porque entro na onda da provocação e ataco também? Porque prego a comunicação não-violenta e agrido com meu falar?

 

Foi exatamente por me deparar com situações assim que me preocupei... será que no seio das nossas famílias e nos círculos de melhores amigos, em que estamos com nossas emoções e sentimentos aflorados, devemos ser técnicos? Somos afinal de contas mediadores ali?

 

Eu já fiz automaticamente espelhamento com meu amado pai para que ele percebesse um tom agressivo de fala e o trem acirrou porque soou afronta; já deixei claro certa vez para meu irmão que a comunicação estava violenta e ouvi que “comunicação não-violenta é quando a pessoa mostra que a comunicação está violenta”; fora as vezes que mesmo sendo chamada por familiares a ajudar fiquei de “intrometida”; ou, quando amigas deixaram de se falar e busquei facilitar a comunicação quando disseram “lá vem a Grasi mediar”. Seria cômico se não me soasse trágico. Rs... Isso dentre uma série de situações por eu ser não só profissional da área como neta mais velha de ambos os lados, representante de turma desde o Colégio às Pós-Graduações, amiga fiel de longas datas(...), enfim, um ponto de apoio e “encaminhamentos”. Ainda mais por alimentar meu perfil/canal @tagarelle de Educação para a Vida e Cultura de Paz. Quanta cobrança para ser exemplar; para não ser demagoga e pregar o que vivo; para incentivar os outros a serem o que luto para trabalhar em mim todos os dias por acreditar nesse valor moral de vida que é a pacificação! E, ainda assim, quebrar expectativas.

 

 

Ah! Mas é tão nobre identificar tudo isso e ter a oportunidade de fazer diferente; é tão humano. E, sendo humano, nos permite acolher a dor do outro e sermos bons no que nos propusemos a fazer profissionalmente pelas pessoas, pois se conectam com a confiança que transparecemos no olhar e essa confiança é essencial para desatar nós e gerar transformação nas relações.

 

Daí, como forma de obter um simples diagnóstico, criei um formulário no Google e enviei para minhas famílias e melhores amigos dizendo humildemente o seguinte:

 

Título: Sou mediadora pra você?

 

Descrição: Venho refletindo em muitas questões que envolvem meu “papel de mediadora” na vida. Se você está recebendo este questionário é porque faz parte do seleto grupo de pessoas que eu me importo em saber opinião sincera sobre mim. Sei que muitos de vocês não têm oportunidade de me conhecer profissionalmente e talvez nem saibam tecnicamente do que se trata a Mediação enquanto Método Adequado de Resolução de Conflitos. Porém, quando vem essa palavra em sua mente e você lembra que sou mediadora, o que você imagina que seja ou como espera que eu seja? Eis a questão e agradeço muito por sua resposta honesta, pois você sabe que é assim que eu lhe responderia também, por cumplicidade e consideração, com amor. Abração, Grasi.

 

Perguntas: Você me acha mediadora de verdade, na vida? Se sim, por que? Se não, o que você espera de mim nesse sentido? Se acha mais ou menos porque existe “porém”, o que posso melhorar?

 

Resultado! Recebi dezesseis comentários. Foi impactante, profundo, maravilhoso e também dolorido em alguns pontos por ser verdadeiro, com choque de realidade na alma. Como é dura a experiência de se submeter a receber feedbacks a essa altura do campeonato. Entretanto, como é fantástico tê-los todos justificados e por isso tão ricos em aprendizagens que te impulsionam a seguir em frente pelo caminho que já está de fato certo. Todavia, três deles com ressalvas e/ou “tapas de luvas” de lavar a cara com lágrimas incessantes e soluçantes. Um dizia para eu buscar outra técnica para os conflitos na família; outro pra eu vigiar o tato no trato; e outro, ah esse outro foi de rasgar o peito, era no estilo “morde e assopra”, narrava com muita sensibilidade minhas mazelas e ao mesmo tempo reconhecia todo meu esforço de boa intenção. Este trouxe um pouco de respostas às minhas questões óbvias. Mostrava que enquanto Mediadora lido com o que me trazem de informações, mas que junto aos meus acabo sendo diretiva com minhas opiniões pessoais ao dar “ajudinha”. Percebi como é difícil aceitar a autodeterminação dos nossos. Queremos protegê-los, guiá-los mesmo que intuitivamente ao que achamos ser o melhor caminho... vai além de não exercermos imparcialidade. É respeito que vem de respicere, ver duas vezes, penso que seja com os olhos da mente e do coração.

 

O que trago de conclusão reflexiva então? Identifiquei na “análise diagnóstica” que a impressão que causo enquanto Mediadora, e que traz consigo as expectativas gerais sobre mim enquanto atuação na vida, é de uma pessoa apaziguadora, que abranda situações pela virtude da pacificação. Pacificador, como já diz a palavra, é alguém que estabelece a paz, que faz a paz entre pessoas. O conceito está intimamente relacionado ao da "justiça". Exatamente aquele tão almejado sentimento que as partes em Mediação procuram encontrar, o de serem justiçados. E este é o segredo que o conflito esconde em sua capa de negatividade, a oportunidade de sairmos da ilusão para a iluminação, ainda que não sejamos surpreendidos porque muitas das vezes só precisamos de um sacolejo para fazermos um reenquadre de nós mesmos, no sentido de mudarmos de perspectiva e admirar o belo que está no nosso horizonte.

 

*Grasielle Mello é diretora da CLARIFICAR – Consultoria e Gestão de Conflitos; presidente da Associação dos Mediadores de Belo Horizonte e Outras Regiões - AMBHOS; mediadora há mais de uma década com certificação avançada pelo Instituto de Certificação e Formação de Mediadores Lusófonos (ICFML) e formação pelo Instituto de Mediação e Arbitragem do Brasil (IMAB); mediadora de conflitos judiciais e instrutora do CNJ em Formação; coordenadora e responsável técnica da Câmara de Mediação, Conciliação e Arbitragem INSEPE, credenciada pelo TJMG; mediadora do Núcleo de Mediação da OAB/MG e membro da Comissão de Mediação da OAB/MG; especialista em Arbitragem e Mediação de Conflitos (FBMG); especialista em Direito Civil e Processual Civil (NewtonPaiva/ANAMAGES); mestranda em Economia e Ciências Políticas com ênfase em Mediação pelo Instituto Universitário ESEADE – Buenos Aires/Argentina.

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