Nunca é tarde para começar: a vida como ela é

Equipe CEMEAR do MPRJ**

 

 

Filomena, uma jovem carioca, tinha uma filha quando conheceu o alagoano Joilson e não demorou muito para se apaixonarem e casarem.

 

Mesmo contra a vontade da mãe, com quem morava até aquele momento, Filomena resolveu ir embora para Alagoas com seu marido e sua filha. E logo a família cresceu com a chegada de Jane.

 

Após três anos de casamento, o amor murchou e a relação ficou difícil. Longe da família e sem trabalho, Filomena sentia-se sozinha e desamparada, conversou com a mãe e resolveu separar-se de Joilson e voltar ao Rio de Janeiro. 

 

Não tinha recursos para se manter e sem a concordância do marido, que não fez nenhum esforço para ajudar no retorno, fez a dura escolha de deixar Jane, com o propósito de conseguir um emprego, uma casa e voltar para buscá-la.

 

Mas as coisas não aconteceram como Filomena esperava. Trabalhando como recepcionista, ganhava pouco mais de um salário mínimo e teve que voltar a morar com a mãe. Os anos foram se passando e Filomena economizava tudo o que podia para ganhar autonomia e ter sua própria casa. Ela conseguiu, mas passados 11 anos, só tinha visto a filha Jane uma vez. E então o inesperado acontece. Joilson recebeu uma proposta de trabalho irrecusável, mas teria que mudar-se para Roraima e não podia levar Jane. Entrou em contato com Filomena comunicando a questão, dizendo que precisava que a mãe assumisse os cuidados com Jane. E assim aconteceu.

 

Mãe e filha retomaram o contato quando Jane tinha 14 anos de idade. Eram duas estranhas. Mas não eram simplesmente duas pessoas que não se conheciam. Era muito mais que isso. Dúvidas, sentimentos e ressentimentos atravessavam a relação que tentavam construir e os conflitos não paravam de crescer. Até que chegaram a vias de fato. Sem saber muito como lidar com a situação e na intenção de dar um basta naquela situação, Filomena procura a Delegacia de Polícia. E foi assim que conhecemos mãe e filha.

 

A Promotora da Infância e Juventude Infracional, ao deparar-se com aquela situação, as encaminhou para a mediação.

 

Foram muitos atendimentos, juntas e sozinhas. Lágrimas, sentimentos, sorrisos, conhecimento, autoconhecimento, trocas. 

 

Logo no primeiro contato, Filomena trazia a sua frustração pela incapacidade de lidar com a situação. Via Jane tão diferente de si e de sua filha mais velha. Não entendia como Jane poderia ser tão ingrata, afinal, ela havia feito um grande esforço para adequar a casa para recebê-la e se preocupava com o bem estar da filha, controlando sua alimentação (“já que estava bem gordinha”), ensinando a cuidar bem de uma casa (“pois era desorganizada e não se preocupava com a limpeza”).

 

Jane, por sua vez, trazia o sentimento de abandono que experimentou quando a mãe foi embora levando consigo apenas sua irmã e de como sentia-se incompleta em seus aniversários, datas festivas e principalmente nos eventos da escola onde via suas amigas recebendo todo o afeto das mães. Embora seu pai e sua avó sejam pessoas que considera maravilhosas e reconheça todo o esforço que faziam para preencher esse buraco, ele, o buraco, ainda estava lá.

 

Filomena não imaginava. Sempre achou que a filha estaria muito bem em Alagoas, pois sabia do carinho e apoio que recebia da família paterna, aliado a uma boa situação financeira, o que possibilitava acesso a uma boa escola e ao conforto que Filomena não se considerava capaz de proporcionar.

 

Ao receber a notícia de que teria que vir para o Rio de Janeiro morar com a mãe, um mix de sentimentos tomou conta de Jane. Ao mesmo tempo que seria a oportunidade de conviver com a sua mãe e preencher o vazio que sentia, havia o medo, a insegurança de como seria sua nova vida (será que conseguiria fazer novos amigos? Como seria a convivência com a sua família materna? Será que iriam gostar dela? E a escola?). É certo que sentiria muitas saudades de sua avó, pai, primos, tios, amigos. Mas criou coragem para encarar o desafio. Construiu uma história em sua imaginação e grande expectativa.  

 

Quando chegou, logo percebeu que as coisas não ocorreram exatamente como imaginou. Filomena nunca havia conversado com a filha sobre o porquê de ter vindo embora sem ela. Não era uma mulher muito afetuosa e tinha grande nível de exigência, sobretudo em relação à limpeza e organização da casa. Esse era um dos pontos de conflito aparente. Jane se sentia em último plano na lista de prioridades da mãe. Dizia que em primeiro lugar vinha a casa, em segundo o trabalho, em terceiro sua irmã, em quarto sua avó, em quinto os amigos e em último, ela.

 

Fala sobre como é difícil ver a admiração que Filomena demonstrava por sua irmã, que é “magra, bonita e independente”, sempre fazendo comparações e a usando como referência, uma vez que Jane não reunia as mesmas qualidades.

 

Conta sobre um dia em que usou o shampoo da mãe, porque o seu havia acabado e Filomena chamou sua atenção, porque não gostava que mexessem nas coisas dela. Mais tarde, naquele mesmo dia, a mãe foi ao mercado, encheu um carrinho de produtos de limpeza, mas não se lembrou de comprar o shampoo da filha. Jane conta e chora mostrando que seu cabelo está sujo.  

 

Filomena constrangida diz que não deu tempo, mas depois reconhece que não se lembrou e que muitas pessoas, inclusive sua mãe, já falaram que ela tem TOC com limpeza. Chora. Diz que nunca quis reconhecer e que costumava se irritar com isso, mas reconhece, pela primeira vez que precisa de ajuda. Filomena decide compartilhar com a filha a sua história. Como foi difícil fazer essa escolha e o quanto ela desejava naquele momento não ter feito. Não dava para voltar no tempo, mas desejava muito o perdão da filha e a construção de uma relação.

 

Mãe e filha estabelecem uma conexão, compartilhando suas fragilidades se conectaram com suas humanidades.  

 

Não sabiam muito bem por onde começar, mas decidiram tentar.

 

No decorrer das sessões foram descobrindo coisas em comum, fazendo pequenos combinados que foram dando certo, aumentando a confiança e criando laços de afeto.

 

Já não chegavam mais com necessidade de sessões individuais. Sentiam-se à vontade para expressar satisfações e insatisfações. Já conversavam sozinhas.

 

Foi então que, depois de seis meses, decidiram que não precisavam mais daquele espaço, sentiam-se fortes e confiante e pediram “alta”.

 

Com isso, reforçamos o entendimento de que a mediação não é terapia, mas seus efeitos, sem dúvida podem ser restauradores.

 

 

*Procuradora de Justiça, Coordenadora do Centro de Mediação, Métodos Autocompositivos e Sistema Restaurativo – CEMEAR - MPRJ.

 

 

**http://www.mprj.mp.br/conheca-o-mprj/areas-de-atuacao/nucleos-de-atuacao/cemear

 

 

 

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