© 2017 por Ana Kucera

Respeito na Mediação

05/11/2019

Ao receber o convite do time Mediando por aí - Ana Rosenblatt, Bárbara Bueno Brandão, Celia Passos, Clara Monteiro, Larissa Davidovich, Marcela Figueiredo, Renata Fonkert, Samantha Pelajo e Vânia Izzo - fiquei feliz e pensativo. Que tipo de reflexão apresentar para colegas mediadores?

 

Passei em revista minha atuação como mediador profissional e encontrei um ponto a ser ponderado, uma espécie de princípio que nunca existiu, um assunto tão importante e essencial que parece ter sido relegado ao abandono. Trata-se de “respeito”. Como essa palavra ganha vida na mediação e qual a sua utilidade para os mediadores.

 

No dicionário etimológico da língua portuguesa encontramos as origens do termo no latim respectus. Seus significados vão de reverência, veneração até obediência. Ao refletir sobre, notei uma característica pessoal minha e de vários mediadores. E julgo que tal predicado, por vezes, é o detalhe que faz a diferença no procedimento.

 

Já trabalhei com inúmeros colegas mediadores que respeitam as pessoas com rigor, respeitam o ser humano ao extremo, não importando o histórico do mediando. Estes mediadores respeitam seja quem for que se assente ali na sua frente. Seja uma pessoa com histórico criminal, de perfil preconceituoso, seja alguém esnobe, com o jeito agressivo, que trate com indiferença certas pessoas, ou seja um mediando de renomado status, muitíssimo inteligente ou rico. Não importa quem, estes mediadores genuinamente respeitam todos, sem julgar ou deixar ideias pré-concebidas sobre o indivíduo alterar seu tratamento.

 

De certa forma, este pré-requisito, o “respeito”, é necessidade comum não apenas na atividade do mediador, mas em qualquer outra profissão. E se aproxima de ideias bem discutidas na teoria da mediação como “empatia”, “não julgar” e “separar a pessoa do problema”. Todavia, o que me chama atenção, é que por ser elementar, deixa-se de analisar como a prática adequada do respeito facilita o trabalho e como o seu descumprimento pode descarrilhar o diálogo.

 

Algumas pessoas colocam o ser humano em primeiro lugar. Outras colocam as ideias, são os intelectuais. Cada um com seu perfil. Divagando sobre estas diferenças, conclui que os mediadores que tratam respeitosamente todos os mediandos, que colocam o ser humano em primeiro lugar, saem em vantagem. Este traço de perfil, a meu ver, pode fazer a diferença na mediação.

 

 

Aproveito para pegar carona no artigo de Daniel Bowling e David Hoffman, Bringing Peace into the Room - the personal qualities of the mediator and their impact on the mediation. Os autores sustentam que a mediação, por vezes, funciona mesmo quando o mediador não foi treinado, devido às suas características pessoais.

 

Curioso notar que até mesmo quando o foco do estudo recai sobre o mediador e não sobre o procedimento, difícil encontrar, com o devido destaque, a função do respeito. Parte-se do pressuposto que o respeito está ali, tácito na mediação, como um pré-requisito. Mas não é bem assim. Na mediação o respeito precisa ser expresso na fala do mediador, em seu gestual e na sua conduta.

 

Qual mediador não vivenciou descontrole emocional de uma das partes em que ela começa a faltar com respeito ao outro durante a reunião? Esperto o mediador que em seu discurso de abertura afirmou a necessidade do tratamento respeitoso recíproco. Na ocasião de erupção das emoções ele retoma aquilo que foi acordado entre todos, e assim mantém o respeito.

 

Na mediação o respeito pode aparecer em duas dimensões: respeito entre as pessoas e respeito para com o procedimento. É dever do mediador manter a forma respeitosa no trato entre os envolvidos e garantir o respeito pelo procedimento como um todo.

 

Para apimentar o tema, interessante o artigo de Ting Zhang, Francesca Gino e Michael Norton Conflict mediators who use a dose of hostility can be surprisingly effective, no blog da universidade inglesa The London School of Economics and Political Science (LSE). O texto evidencia a eficácia de mediadores que usam uma pitada de hostilidade. A princípio um contrassenso, conciliar respeito e hostilidade. Mas quando se detém e se aprofunda na atuação do mediador, verifica-se a compatibilidade entre tais substantivos.

 

O mediador presta respeito a todos os envolvidos, garante que as partes se tratem respeitosamente, cumpram o que foi acordado e sigam as etapas e os princípios do método, sob o risco de escaparem do prumo e não serem eficazes no diálogo. Caso haja desvirtuamento do modus respeito, o mediador pode ser bastante assertivo, usando sua autoridade como condutor do processo, e até mesmo, a depender da situação, usar uma pitada de hostilidade para fazer voltar a questão e/ou as pessoas para o eixo. Não há nada errado nisto. Na realidade, os participantes esperam esse tipo de condução.

 

O texto da LSE indica que os mediandos se tornam mais razoáveis e se unem frente a um mediador hostil, pois ele passa a ser encarado como uma espécie de inimigo comum. Todavia, para surtir efeito, os autores argumentam que a hostilidade deve ser equilibrada entre as partes. Outra ressalva necessária refere-se à linha tênue entre ser duro em momentos estratégicos e ser hostil ao longo de todo o processo de mediação. O mediador será eficaz quando agir de forma severa no momento crítico em que os mediandos não conseguem ver as perspectivas uns dos outros.

 

Em negociações e mediações em comunidades com índices socioeconômicos baixos e altos índices de crimes violentos, em negociações envolvendo governantes, CEOs de multinacionais, mediações sobre assuntos de extrema relevância para as pessoas envolvidas, negociação entre adversários políticos, mediação com movimentos sociais raivosos, pessoas armadas, o respeito impecável do mediador para com todos que sentam na mesa de mediação ou que ficam em pé durante conversas extremas, é crucial para o desenrolar produtivo do diálogo.

 

Por fim, a título ilustrativo, vale destacar que denotará respeito o mediador que não se deixar influenciar pelo passado dos mediandos; se policiar para não entrar na dança só com um lado; manter constante o exercício do não julgamento; reforçar a habilidade de separar a pessoa do problema; ter tolerância para lidar com vários tipos de personalidade; manejar com cuidado as posturas hostis das partes; escutar troca de farpas entre mediandos e, com um filtro, vislumbrar uma necessidade não atendida por trás daquele jeito agressivo; não reagir e saber ser duro para conter a escalada dos ânimos. Por outro lado, a falta de respeito pode residir no descuido do mediador, como uma sutil ironia voltada para um mediando durante a reunião ou um leve aceno de aquiescência com a brincadeira preconceituosa de um dos lados. O desrespeito poderá comprometer a confiança e contaminar todo o procedimento.

 

Uma última palavra sobre respeito. Aprendi certa feita que a confiança, elemento fundamental para o desenvolvimento da mediação, se baseia primeiramente no respeito e depois no apoio. O primeiro degrau na construção da confiança é o respeito e deve ser cuidado a todo custo, pois, se ele quebrar, o apoio, que é o caráter colaborativo na mediação, não existirá, e a consequente falta da confiança travará o diálogo.

 

 

Bem, com todo respeito, espero nos encontrarmos Mediando por aí.

 

*Ronan Ramos Jr. é advogado pela Faculdade de Direito Milton Campos e mediador certificado pela Harvard Law School.

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