Convite à Comediação: bastidores

A vida é cheia de surpresas.  Escolhemos - talvez não tão conscientemente como gostaríamos - o que fazer diante delas. Uma dessas surpresas aconteceu recentemente.

 

Um barulho de cristais me tirou da rotina noturna de mãe de primeira viagem. Uma mensagem me fez voltar para a mediação: um convite carinhoso para trabalhar na comediação de um casal que resolve ter um filho e quer negociar os termos da parceria na parentalidade.

 

Logo pensei que ótimo seria se pudesse voltar atrás alguns meses ou anos e ter feito esta mesma proposta ao pai do meu filho...  Claro: não se trata de mim, nem das minhas relações familiares, que ficam guardadas para que eu possa ser de alguma valia para este casal e seu desejo de trazer ao mundo uma criança.

 

Aos poucos fui voltando a lembrar da minha função de mediadora, dos trabalhos realizados, da beleza do ser humano e de como é me surpreender com as diferentes formas de viver. Não existe monotonia no trabalho do mediador. E compartilhar este lugar com uma colega faz da mediação um rico espaço de aprendizado para todos.

 

Desde o início senti sintonia sincronicidade com Samantha e sua proposta de trabalho. A interação entre os comediadores é essencial para que os mediandos encontrem uma ambiência favorável ao diálogo e à cooperação e para que possam lidar com suas diferenças de forma empática e construtiva.

 

Aceitei de imediato o convite. Estava mesmo querendo voltar a mediar depois de tantos meses de dedicação ao filho recém nascido.

 

Este momento, antes de iniciarmos uma mediação - a preparação, o planejamento ... -, sempre me instiga. O que virá? O que sabíamos sobre o caso até então? Como iríamos nos organizar? Qual seria nossa hipótese de trabalho? Quais narrativas estariam nos discursos?

 

Sobre o contexto fático, Samantha explicou um pouco mais em nossa reunião de equipe, preparatória da pré mediação:

 

Samira, pelo que pude compreender até então, Betina e Ronaldo* estavam juntos há 6 anos quando souberam da gravidez.  Foi um misto de sentimentos: muita emoção pela vinda de um bebê, fruto do amor dos dois; muita apreensão, pela mudança iminente em suas vidas pessoais e na interação conjugal.

 

Ao longo dos anos de vida em comum, Ronaldo e Betina haviam se esmerado muito na construção de um relacionamento de muita parceria e cumplicidade. Haviam encontrado complementaridade nas incontáveis diferenças.

 

Seus interesses e hábitos cotidianos eram muito próprios. A maioria dos amigos achava curioso que pessoas tão diferentes pudessem manter um relacionamento afetivo por tanto tempo. Ronaldo e Betina, no entanto, sentiam muito prazer em desfrutar da companhia um do outro e divertiam-se com as longas conversas sobre as situações inusitadas da vida.

 

O casal conjugal funcionava. Mas e o par parental? Parecia um desafio e tanto delinear os norteadores da formação de um novo ser, do qual ambos seriam corresponsáveis. Até porque reconheciam que seus referenciais de educação infantil eram bem distintos.

 

Betina acreditava ser muito importante que a criança seguisse uma rotina estrita de sono e alimentação. Televisão e I-Pad nem pensar antes dos 3 anos. E mesmo depois, precisariam ter um limite diário bastante rigoroso.

 

Ronaldo era da teoria de que a criança deveria ficar mais solta. Brincar, contemplar, ser estimulada, inclusive pelos programas e filmes infantis, de forma mais livre. Dormiria e se alimentaria sempre que sentisse essa necessidade.

Para além das dissonâncias nos modelos idealizados de educação, Ronaldo tinha a sensação de que Betina era um tantinho exagerada; Betina não conseguia deixar de considerar Ronaldo em certa medida displicente.

 

Sabiam que seria muito difícil manter a qualidade da interação afetiva entre eles se não conseguissem construir consenso com relação ao projeto parental. Simplesmente deixar acontecer seria um desastre que reverberaria negativamente sobre o vínculo que haviam construído com tanto esforço.

 

Em meio a essa profusão de sentimentos, cuja tônica principal era a angústia, foram se passando os meses de gravidez.

 

Certa feita, em um almoço de domingo no clube, um amigo em comum, de nome Carlos*, comentou que estava constituindo uma sociedade com dois colegas de profissão e que o desenho das linhas mestras da atividade empresarial e das responsabilidades de cada sócio estava sendo negociado em meio a um procedimento de Mediação.

 

Ronaldo e Betina mostraram-se muito surpresos. Questionaram o amigo sobre o porquê da intervenção de um mediador em um contexto não conflitivo.

 

Carlos explicou que a ideia era de facilitação da comunicação para que os empreendedores pudessem explorar ao máximo o potencial do negócio e da sinergia entre eles. O contrato seria redigido de forma absolutamente customizada e cada uma de suas cláusulas traria uma ata anexa com o retrato da motivação que ensejou aquela decisão quando da constituição da sociedade.

 

 

No final daquela tarde, ao chegaram em casa, Betina e Ronaldo entreolharam-se, já sabendo que compartilhavam do mesmo entendimento: iriam procurar um mediador para construírem consenso sobre os termos da parceria na parentalidade.

 

E foi assim que Betina e Ronaldo chegaram para a mediação. Nós, mediadoras, precisávamos nos organizar para receber o casal.

 

O que está pensando sobre o caso, Samantha? Qual seria nossa hipótese de trabalho?

 

Então, Samira: fico imaginando que nosso trabalho passe por ajudá-los a discriminar a conjugalidade da parentalidade, para que possam desenhar diferentes naturezas de parceria.

 

Sabemos que, quando vem um filho, a relação triangulariza e o casal precisa se reinventar para dar conta de preservar o vínculo afetivo e, em paralelo, estabelecer uma relação de amor e cuidado com o mais novo pequeno membro da família.

 

Minha hipótese é de que eles acreditem - e é bem capaz que tragam essa premissa para a mesa de mediação - que o ideal seria que o filho pudesse conhecer a visão de mundo, as experiências acumuladas, as referências principiológicas de pai e mãe.

 

Nosso desafio parece ser explorar se, na perspectiva deles, os adultos deveriam significar suas diferenças como complementares entre si, permitindo que o filho possa ter a diversidade como insumo para a formação de sua personalidade.

 

Suponho que eles compreendam - ainda que mais intuitiva do que racionalmente - a relação de interdependência que mantém entre si, mas estejam agindo de forma contraditória à essa premissa, desqualificando-se reciprocamente.

 

Caso encontremos consonância de percepções quanto à essa questão, começaremos alinhados desde o principio.

 

O que você pensa sobre isso?

 

Então, Samantha, entendi que a hipótese de trabalho é: há um desejo que o filho possa conhecer ambas as visões de mundo, mas o casal talvez não esteja conseguindo dialogar e perceber que é possível conviver com as diferenças cotidianas, acabando por assumir posturas reativas e resistentes.  Compreendi bem?

 

Pensando nesta hipótese, poderíamos começar com o trabalho de valorização e reconhecimento das diferentes formas de criar uma criança e da riqueza que esta diversidade pode gerar para a formação do filho, que contará com uma visão mais complexa da vida. Com o trabalho de valorização e reconhecimento, talvez consigam ressignificar o diferente como algo positivo e compreender as possibilidades reais de coexistência entre o que cada um tem a oferecer. Acredito que possamos criar um ambiente favorável para o diálogo entre eles.

 

No mais, não vejo a questão de gênero, neste trabalho. Imagino que possamos atuar juntas como comediadoras deste caso. O que acha?

 

Se concordar, acho que podemos também já pensar em como organizaríamos fisicamente o ambiente para recebê-los e os demais detalhes importantes...

 

Samira, acredito que estejamos totalmente alinhadas e que possamos sim comediar o caso de Betina e Ronaldo.

 

Bom, as cortinas se abrirão em breve. O cenário e o roteiro provisório estão prontos. Agora, resta-nos iluminar o palco para que os atores principais protagonizem seu desejo na vida.

 

*Os nomes são fictícios e o caso foi suficientemente descaracterizado para preservar o anonimato dos mediandos.

 

Samantha Pelajo é mestre em Sociologia e Direito pela UFF, cocoordenadora e coautora dos livros “Mediação de Conflitos para iniciantes, praticantes e docentes” (Salvador: JusPodivm, 2018) e Mediação no Novo Código de Processo Civil (Rio de Janeiro: Gen Forense, 2018), mediadora de conflitos, professora coordenadora do Grupo Interdisciplinar de Mediação de Conflitos - GIMEC, vice presidente da Comissão de Mediação de Conflitos do Conselho Federal da OAB, membro do Conselho Consultivo do MEDIARE. 

 

Samira Iasbeck é mestre em Ciência Ambiental pela USP, autora do livro “Mediação de Conflitos Ambientais: um novo caminho para a Governança da ÁGUA no Brasil?” (Curitiba: Juruá, 2010), mediadora de conflitos, professora de Mediação de Conflitos, co-fundadora do Grupo Avançado de Mediadores Institucionais - GAMEI, coordenadora do Núcleo de Mediação da Adasa - Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento Básico do Distrito Federal (2012-2016).

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