O paradoxo entre a realidade e a esperança de um mundo melhor

Quando recebi o convite para escrever este texto, fiquei pensando qual seria o tema mais interessante para compartilhar com o leitor deste canal, que pudesse, de alguma forma, diverti-lo, inspirá-lo ou mesmo aliviá-lo das pressões, fazê-lo ver o mundo com mais esperança, trazer  alívio para a realidade exigente do quotidiano que, a todo momento, espera de nós um posicionamento efetivo diante das polarizações que estão por aí. Parece que estamos obrigados a um processo de escolha binário, sem escapatória. 

 

Logo vi que seria uma árdua tarefa. Preferi mostrar, então, que também é possível ver leveza e esperança no simples, no nosso arrozinho com feijão do dia a dia. Assim, compartilho com vocês um pouco do que tenho aprendido com este trabalho que a mediação propicia de mergulhar no universo conflituoso do ‘outro’, na expectativa de que isso possa ajudá-los a melhorar um pouco este nosso mundo tão cheio de questões mal resolvidas.

 

Há alguns anos tenho mediado casais em processo de divórcio dentro e fora do judiciário e, invariavelmente, tenho percebido que, em grande parte dos casos, as pessoas chegam à mediação com o sentimento de que sua dignidade foi atacada por aquela que seria a última pessoa no mundo que elas esperariam que fizesse isso.  É comum as pessoas relatarem que foram feridas em sua integridade pessoal, em seus valores éticos e morais, em seu amor próprio.  A meu ver, o difícil trabalho do mediador começa exatamente aí. 

 

Inicialmente, devemos nos sintonizar com a dor dessa pessoa, depois garantir a ela que a mediação irá respeitar sua dignidade e, por último, fazê-la restaurar, se for possível, uma convivência pacífica. A boa notícia que trago é que, com muita frequência, o caminho seguido pelo mediador leva a resultados excelentes de pacificação e harmonia entre as pessoas. 

 

Explico melhor:  o casal, em regra, chega à mediação com os valores da confiança, do respeito e da comunicação muito abalados. Esses valores são os pilares que sustentam os relacionamentos entre as pessoas, sem eles os conflitos serão inevitáveis. Assim, normalmente, escutamos aquela mãe zelosa, protetora e afetuosa dizer para o mediador: “Ele me traiu quando meu filho ainda estava para nascer. Eu não confio nesse homem! O que meu filho tem a aprender com ele?”. Para essa mãe, a confiança naquele homem foi irremediavelmente perdida e, com essa narrativa, deixa claro que não dá para compartilhar o ser que ela mais ama no mundo com o seu maior traidor. 

 

Do lado oposto, temos o pai que deseja fortemente estar com seu filho, que se sente impedido de conviver com a criança, acusando a mãe de impedi-lo de exercer seu direito e que diz ao mediador: “Nosso casamento já tinha acabado quando saí de casa; ela insiste em usar nosso filho para se vingar de mim”. Desse modo, encontramo-nos numa encruzilhada da qual poucos escapam. O mediador deverá usar de todas as suas habilidades comunicacionais para sair dessa armadilha, desse paradoxo que parece não ter possibilidade de ser resolvido. 
        
Normalmente, a situação já teve idas e vindas, bloqueios, impossibilidades, processos, advogados, muito tempo e dinheiro gastos sem resultados concretos. A possibilidade de se obter o “consenso” ou a “transformação”, objetivos principais da mediação, ficam cada vez mais distantes e a frustração é geral.

 

Para sair disso, o mediador precisará, no sentido figurado, observar a situação de cima, com uma lente grande angular, para poder ver o que aquelas pessoas não conseguem enxergar. Neste nosso ofício, é necessário não ficarmos na superfície, senão somos facilmente dragados pelas ondas de dor e ódio que vêm e vão como num mar revolto. 

 

Assim, questões importantes deverão ser ventiladas durante o processo de mediação. No caso hipotético a que se fez referência anteriormente, por exemplo, seria importante que a mulher refletisse a respeito da relação existente entre a “conjugalidade” e a “parentalidade”, ou seja, será que um “péssimo marido” e um “ótimo pai” podem coexistir dentro de um mesmo homem? Ou ainda: o filho tem o direito de ter um pai presente, mesmo tendo esse pai ferido gravemente os sentimentos da mãe?

 

No caso dele, a reflexão teria de passar sobre a responsabilização dos efeitos devastadores das nossas escolhas sobre aqueles que convivem conosco. Haveria a possibilidade de pedidos razoáveis não serem vistos como exigências movidas por vingança? Isto entre inúmeras outras questões possíveis de serem levantadas. 

 

As possibilidades de comunicação do mediador são infinitas, sua linguagem funciona como uma chave de acesso a um universo inteiro que está disponível para ser alcançado. Diante da polarização, a teoria nos ensina que o ideal seria encontrarmos algo em comum que una as pessoas, que as faça abandonar suas posições enrijecidas e que provoque a união em torno de algo maior. No caso em questão, talvez o bem-estar do filho possa ser este elemento de união que possibilite restaurar a convivência dos pais.

 

Quando o trabalho do mediador de inspirar as pessoas a agirem na sua melhor versão dá resultados, a confiança retorna, o respeito passa a ser a tônica da relação e a comunicação torna-se possível. 

 

Tudo isso faz parte desta nossa jornada de esperança em direção a um mundo onde os conflitos são vivenciados como experiências de crescimento e maturidade sem encarcerar as pessoas dentro de perspectivas “vitimizadoras” e diminuídas da grande beleza que é a existência humana.

 

* Cassio Filgueiras é mediador especializado em contextos familiares, coordenador do Fórum Nacional de Mediação – FONAME, co-coordenador do curso de mediação de conflitos da Associação Palas Athena e ISA-ADRs e Supervisor de mediadores judiciais pelo CNJ.

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