Uma única versão

11/09/2019

Eu sou o que vivi, experimentei, o que os meus pais me ensinaram, um somatório de fatores, e fico pensando: por que podemos resumir o outro por determinada atitude ou pelo todo?

 

E como acreditarmos em verdades absolutas, que cristalizaram em razão de termos ouvido tantas e tantas vezes a mesma versão da história... Será que quando olhamos para uma pessoa e criamos um rótulo por algo que vemos, paramos para pensar que aquilo pode não representar a pessoa por completo??

 

Fico me questionando como acreditamos fácil no que ouvimos e como as repetições viram falsos mantras na nossa consciência, capazes de nos deixar cegos em relação às inúmeras possibilidades que uma pessoa pode ser e/ou representar, assim como as diversas situações que podemos viver.

 

Noto como isso ocorre corriqueiramente na nossa vida. Quando nos deparamos com alguém em situação de rua, por exemplo, ficamos com pena da pessoa e a resumimos naquele ser pobre, passando necessidade. Não paramos para pensar que ela é muito além do que vemos; tem uma história, sucesso, fracasso, experiências de vida como todos que habitam este planeta. Deixamos a situação que a pessoa está vivendo dizer tudo sobre ela. Será que é só isso? Como podemos sentir pena da pessoa sem nem a conhecer? Será que podemos reduzir as pessoas dessa maneira? A pobreza é o nosso olhar único para essas pessoas, como se fosse a história definitiva de cada uma delas... Não, a pobreza não as define!

 

Assim também fazemos com outras culturas, ao prejulgar que a pessoa é o que a história do seu país de origem parece ser, nos repetitivos discursos da mídia, como se o cidadão não tivesse sua individualidade e suas próprias experiências que o pudessem fazer ser algo bem diferente do que o rotulamos por ter nascido onde nasceu... É assim que se cria uma versão única, intitula o povo como uma coisa, uma coisa só, sem parar, e é assim que esse povo se torna. Não, o país que o ser humano nasceu não o define!

 

Quantas vezes ficamos surpresos quando alguém demonstra ser distante daquilo que supostamente pensávamos saber da sua realidade? Ao estranharmos, certamente já tínhamos imaginado um estereótipo dessa pessoa, um lugar fixo e estático que encaixamos o ser humano, como se fosse assim tão simples e natural. Não, o que supomos não define ninguém!

 

Vocês devem estar se perguntando o que tudo isso tem a ver com a mediação... Eu diria que tudo. Quando agimos assim, na maioria das vezes, não incluímos a pessoa, não conseguimos perceber que não existe uma única versão, seja da pessoa ou das atitudes dela frente às situações. Nossos paradigmas, preconceitos e prejulgamentos nos atrapalham a conseguir dialogar com o outro. Se achamos que já sabemos tudo do outro, frente a um enquadramento que fazemos com base nas nossas próprias ilusórias convicções, como exercer, de fato, a empatia? Como ouvir para considerar? Como perceber que o outro, além de não ser nada do que eu sempre “fantasiei”, pode trazer novas perspectivas, uma nova visão para o mesmo fato?

 

Tenho pensado muito sobre tudo isso e acredito que, antes de qualquer ensinamento que as ferramentas da comunicação e da própria mediação possam nos oferecer, o amor e o respeito pelo outro podem ser um interessante e precioso início...

 

 

 

 

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© 2017 por Ana Kucera