Você acha isso justo?

 

Essa é uma pergunta que a gente ouve com frequência num início de mediação. Pensar sobre se uma situação é ou não justa dá voltas em nossas cabeças, quando nos deparamos com posicionamentos ou opiniões que não coincidem com as nossas.

 

E aí vem a grande questão: qual parâmetro utilizar para balizar o que seja ou não seja justo?

 

Carlos e Tereza, após muitos anos de convivência, resolveram se separar. No período em que estiveram juntos, compraram e reformaram, com muito sacrifício e trabalho de ambos, o imóvel no qual residem. Carlos está desempregado, precisando de algum capital para seguir sua vida. Tereza, que vive no imóvel com sua única filha, quer manter o patrimônio, pois receia que, se o dividir com Carlos, ele será desperdiçado. Ambos confirmam que Carlos não sabe controlar as finanças. Durante o casamento, era Tereza quem cuidava das contas da família e, por essa razão, conseguiram adquirir o apartamento. Ambos estão dispostos a dividir o patrimônio de tal forma que Tereza ficará com 90 por cento do imóvel e Carlos com 10 por cento. Tereza está trabalhando, portanto, tem uma renda. Ambos têm total clareza de seus direitos legais.

 

Como você escuta essa decisão?

 

Ela lhe parece justa?

 

Temos tanta necessidade de compreender o mundo a partir de nossos valores e opiniões, que, quando algo foge à nossa própria linha de raciocínio, desconsideramos imediatamente.

 

Um bom antídoto para isso, e que é extremamente útil a um mediador de conflitos, é a curiosidade. Mas não a curiosidade no que se refere à história em si, mas ao sentido que as histórias das pessoas têm para elas mesmas.

 

Esse é um tipo de curiosidade genuína que nos faz pensar sobre: por que será que ambos estão considerando que uma divisão 90/10 está ok para eles se Carlos e Tereza teriam legalmente direito a 50 por cento dos bens pelo regime de união estabelecido no casamento? O que os motiva a entender que o justo seja essa divisão e não alguma outra?

 

À medida que fomos conversando e conhecendo mais Carlos e Tereza, aumentou mais e mais nossa certeza e confirmação de que eles estavam fazendo uma escolha madura, refletida e consciente; que estavam considerando suas trajetórias de vida, os acontecimentos que ocorreram durante o tempo em que estiveram juntos, as "dívidas emocionais" que tinham um com o outro, as questões que os impediam de seguir juntos, suas características pessoais e o afeto e apreço que tinham um pelo outro. Eles estavam considerando aspectos da vida que só eles mesmos seriam capazes de avaliar e ponderar, para entender que uma decisão possa ou não ser justa.

 

Este é um exemplo simples, mas absolutamente corriqueiro do quanto o centro de avaliação de justiça, ao ser estabelecido de uma maneira generalizada, externa e fixa, não alcança a vida na sua completude.

 

O homem em suas relações experimenta significados de valores extremamente difíceis de serem traduzidos em números. Apenas Carlos e Tereza podem dimensionar isso. Apenas eles podem avaliar como minimamente reduzir seus danos. Mesmo que parte desses danos seja financeiro, existe uma outra parte que, para que a justiça seja feita, precisa ser considerada. Essa outra parte só eles conhecem.

 

Ao mediador de conflitos ou facilitador de diálogos apenas cabe, através de seus recursos técnicos e principalmente da escuta empática, da curiosidade genuína, da humildade do não se pensar sabendo mais que a própria pessoa e da não diretividade, auxiliar as pessoas que os procuram a encontrar dentro delas mesmas seu centro de valoração interno. Centro esse que lhes permitirá fazer escolhas, não apenas racionalmente compreendidas, mas sobretudo sentidas como justas, considerando a si e ao outro. Escolhas com as quais vão poder conviver e deitar no travesseiro sentindo-se bem em ter resolvido, da maneira como resolveram.

 

Será então que o justo é o que nos faz bem ao "coração"? O que nos traz paz e liberdade de seguir leves em nosso caminho?

 

 

* Maria do Céu Lamarão Battaglia é Psicóloga Humanista, Psicoterapeuta de Família e Casal Sistêmica, Facilitadora de Grupos, Mediadora, Professora e Supervisora. Mestre pela UFRJ e Mediadora desde 2000, com formação no Mediare e no TJ/RJ. Como mediadora Sênior CNJ, atua no CEJUSC Barra e na Defensoria Pública do Rio de Janeiro, fazendo parte das Câmaras de Mediação da OAB/RJ, Mediare, FGV Projetos e CAMES. Tem diversos artigos publicados.

Compartilhar no Facebook
Please reload

Siga
Procure por  assuntos:
Please reload

  • Facebook Social Icon

© 2017 por Ana Kucera