As rabanadas do Natal

12/25/2019

 

Eu gostava do que comíamos no Natal, especialmente das rabanadas. Naquela época eu acreditava que as rabanadas só podiam ser saboreadas no Natal. Certa vez, conversando com a minha bisavó, a mãe da minha avó paterna, eu comentei que eu gostava imensamente do Natal e ela me perguntou por quê. Então, eu disse que era por que no Natal comíamos rabanadas. Eu tinha a crença de que as rabanadas eram parte do Natal. Quando cheguei da escola, me pareceu que tinha acontecido um milagre! Havia um prato de rabanadas prontinhas me esperando. Esse diálogo, com a mesma observação sobre o Natal, a mesma pergunta e resposta funcionava como magia. Minha bisavó sempre preparava as rabanadas. Sem perceber criamos um código para representar o meu desejo. 

 

As rabanadas fora da época do Natal me faziam perceber a minha bisavó como alguém muito especial. Hoje, sei que o meu fascínio era ela não estar presa às convenções.

 

Aliás, nesse sentido aprendi muito com ela. Para ela, que era a expressão da compaixão, rabanadas são possíveis a qualquer época do ano. E não ficava por aí. O que mais me encantava nela era a hospitalidade, sua capacidade de acolher e de cuidar das pessoas.

 

Lembro-me de um fato marcante. Ela conversando sobre a visita, em nossa casa, de uma sobrinha desquitada com o seu novo companheiro.

 

A questão era a seguinte: antes da lei do divórcio, que data de dezembro de 1977, a pessoa que se separava, tecnicamente falando, se desquitava. E uma pessoa desquitada não podia se casar novamente, pois o desquite encerrava o casamento mas não permitia uma nova união em matrimônio reconhecida pelo Estado. Essa pessoa ficava malvista. Sua situação se agravava se ela decidisse refazer a vida em companhia de outra pessoa, que poderia ser desquitada ou não. Ao construir um novo projeto de vida ao lado de um novo parceiro, ela se tornava amásia. Isso era assim para todos, independentemente da história pessoal de cada um. Assim, muitas portas se fechavam para os casais amasiados. A nova união era carregada de preconceitos e o próprio termo amasiado tinha forte carga pejorativa.

 

Entre outros problemas, de cunho religioso, por algum motivo convencionado, as pessoas tidas como “pessoas de bem” não recebiam casais amasiados em casa. Estes eram, portanto, excluídos e ficavam à margem da sociedade.

 

Ao ser demandada sobre esse assunto, minha bisavó dizia: “Eu não recebo desquitados ou amasiados em casa. Eu recebo pessoas. E estou com saudades da minha sobrinha. Quero saber dela e do novo marido.”

 

Minha bisavó pensava muito além do seu tempo. Esse foi, para mim, um grande aprendizado sobre liberdade. Não importa o que é convencionado se gera sofrimento a alguém. Importa a congruência entre quem você é e as suas ações. Sua fala ressoa em mim desde aquele tempo. Mesmo depois de passados mais de cinquenta anos, essa fala é pertinente e atual quando penso em novas formas sociais de exclusão, preconceitos e segregações.[i]

 

Que em 2020 seja Natal todos os dias! Que possamos nos dar a liberdade de escolher receber ou não, calar ou falar, seguir ou reorientar, tendo como uma única preocupação não gerar sofrimento aos outros. Que esse seja o nosso ânimo e essa a nossa bússola

 

[i] Fonte: Circulando dentro e fora dos Círculos – Narrativas de uma prática em Processos Circulares. Editora ISA-ADRS. Rio de Janeiro. 2019

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