A Ataraxia e o Mediador

   

 

Tive contato com termo grego ataraxia há aproximadamente dez anos. Tudo aconteceu no início da minha caminhada na mediação.

 

O mês era agosto, e eu vinha de mais uma sessão de mediação frustrada. Recebi um casal que estava em um doloroso processo de separação. Ali tinha de tudo: guarda dos filhos, divisão de considerável patrimônio, e, principalmente, uma história de vida em comum que os fazia sofrer pela rememoração de suas trajetórias.

 

Eu, um mediador inexperiente, dando os meus primeiros passos e encarando, logo de cara, um caso complexo e com enorme conteúdo emocional.

 

Da euforia, daquilo que poderia ser transformador na minha vida e na vida de muitos, realmente acreditando que uma nova cultura pudesse se instalar, tomando lugar da litigiosidade já impregnada em nossa vida, deparei-me com a realidade de um mediador nos primeiros dias, nos primeiros passos.  Ou seja, toda a técnica conhecida, todas as simulações feitas durante o aprendizado, de pouco me serviam. Sentia-me afetado com as narrativas do conflito, não conseguia ir muito adiante, o que me frustrava.

 

Pois bem, num desses dias em que saía de uma sessão de mediação frustrante, encontrei meu instrutor, aquele que ensinou os primeiros passos da mediação de conflitos. Vendo a minha frustração, convidou-me para um café. Lá fui eu. Minha primeira reação, ao ser perguntado sobre o meu visível abatimento, foi dizer que, durante o curso preparatório, as simulações feitas, os filmes vistos, via um mediador que conseguia perpassar as fases do processo de mediação, fazer os resumos, identificar necessidades e elaborar uma pauta. Já eu, dizia a ele, não consigo. Por vezes, o processo de mediação é tortuoso, difícil, sinuoso. E como manter-se diante de narrativas tão inquietantes?

 

Para tanto, trabalhando a partir do ponto neutro e imparcial, deveria entender qual é esse lugar. Evidentemente que, ao estar no lugar do meio, teria que gerar uma construção de dissociação operativa, legitimar internamente cada mediando, reformular o conflito e refletir acerca do impacto pessoal gerado pelo caso concreto.

 

Daí, foi-me perguntado se conhecia o termo ataraxia. Diante da minha negativa, meu instrutor explicou: ”é o estado de imperturbabilidade que o profissional precisa ter para desenvolver o seu ofício”. No conceito fundamental da filosofia, pode ser traduzido como a ausência de inquietação, serenidade de espírito.

 

Conclusão: em razão da complexidade do processo de mediação, só será possível aplicar as técnicas necessárias, desenvolver a escuta ativa, enfim, desempenhar as multitarefas indispensáveis, se nos colocarmos em uma zona de imperturbabilidade, gerando um estado anímico que disciplina a prática.

 

Entendi, portanto, que ataraxia e mediação se entrelaçam, sendo fundamentais a mim como mediador.

 

* Mediador Judicial Sênior do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJRJ). Mestre em Mediação e Negociação pelo Institut Universitaire Kurt Bösch (IUKB).

 

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