O lugar do vazio

 

 

Acredito que as experiências, após serem vivenciadas e interiorizadas, precisam ser partilhadas, de forma que, depois de divulgadas, possam ganhar valor e, quando merecem, consigam se eternizar. Tenho a crença de que só assim, quando as experiências passam a ter vida própria, se reproduzem e aprimoram, todos enriquecemos porque criamos valor para o mundo em que vivemos.

 

Certo dia, durante uma aula de mediação, diante de uma turma maravilhosa de interessados em desenvolver conhecimento, fui questionada sobre como conseguia, durante a minha atuação como Mediadora, ficar distante da situação e não me envolver com o assunto, não tomar partido de um ou de outro lado, não realizar juízos de valor, nem partilhar o meu ponto de vista sobre a divergência vivenciada entre os intervenientes na situação. Nesse sentido, depois de uma simulação e das dificuldades constatadas, decidi partilhar algo muito íntimo sobre a minha atuação, que considero ter otimizado o sucesso do meu desempenho, permitindo desenvolver alguns aspetos que entendo ter possibilitado alcançar um diferencial na minha atuação profissional.

 

Mediando por aí provocou em mim a reflexão sobre o que poderia partilhar, tendo decidido partilhar com você, o que, ao longo dos tempos, durante a minha prática, criei, desenvolvi e uso na minha atuação profissional e que denomino de LUGAR DO VAZIO.

 

Aprendi com as minhas vivências, experiências e exercício pessoal do que designo de AUTOTUDO (autoanálise, autoavaliação, autocrítica, autorreflexão, autoconhecimento...) que este VAZIO a que me refiro é um LUGAR que tem em si um espaço imenso para poder ser ocupado de forma consciente e profissional. Nesse momento, decidi ficar mais atenta e verificar como ocorria em mim o processo de surgimento do LUGAR DO VAZIO, e qual o seu potencial de oportunidade na minha atuação, bem como os desafios que precisava enfrentar para poder, intencionalmente, criar e manter esse lugar, e, até mesmo, eliminá-lo quando fosse necessário.

 

O LUGAR DO VAZIO exige a disponibilidade de nos colocarmos em um LUGAR, dentro de nós, onde conseguimos observar o que se passa no exterior sem sermos condicionados ou limitados pelo nosso interior. É conseguir observar o que é manifestado de forma verbal, não verbal e “paraverbal”, distanciando a nossa história, vivências, experiências, sentimentos, valores ou referências preexistentes, criando um VAZIO que se permite ser preenchido com diferentes visões da mesma história, de modo acolhedor e empático. Assim, o LUGAR DO VAZIO é algo que considero ser possível aprimorar em cada momento de preparação para realizar uma mediação, bem como durante e após o seu término.

 

É como se a nossa visão conseguisse ampliar para ver o todo e mais além. Como uma parte de nós que nos abandona e deixa livre um espaço para conseguirmos preencher e observar, de forma genuinamente peculiar e interessada, permitindo entender o que nos é apresentado, sem julgamentos, deixando bem distantes e serenas nossas crenças, ética, moral, valores e emoções. É respeitar a unicidade de cada indivíduo, entender os seus comportamentos, fundamento e motivações, bem como perceber a situação e acatar a autonomia das escolhas realizadas por cada interveniente.

 

É SER e ESTAR em modo VAZIO que nos permite vivenciar o verdadeiro contato com o outro e com o mundo próprio dele, sem qualquer prejulgamento ou juízo de valor. Assim, mais do que imparcial ou neutro, é permitir-se estar presente, se esvaziando de si mesmo e ao mesmo tempo se deixando preencher por aquilo que é capaz de captar naquele instante. É se posicionar acolhendo e trazendo para dentro do EU o que lhe é dado, se transformando no eco do OUTRO. É se permitir esvaziar de todas as suas supostas verdades e crenças no contato com o outro e com o mundo. O LUGAR DO VAZIO é não criticar nem julgar, mas sim captar cada momento como único e exclusivo, sendo esse o privilégio ofertado ao Mediador.

 

Para alcançar esse LUGAR é preciso ser genuíno e verdadeiro no que fazemos e dizemos, bem como na forma como o fazemos e com o que dizemos. Importa, assim, respeitar a vivência e experiência do outro e nos preocuparmos em entender o que está por detrás do visível, acolhendo cada manifestação e partilha. Criar espaço para escutar o outro permite beneficiar-se do privilégio de ter a sua confiança na partilha da sua maior riqueza, suas vivências, experiências e muitas vezes a sua intimidade profunda, o seu SER e ESTAR.

 

Apenas é verdadeiramente possível alcançar o espaço e a dimensão do LUGAR DO VAZIO quando, para entender o outro, consigo ser capaz de afastar as minhas experiências, vivências, significados e sensações manifestadas de forma automática, que meu cérebro envia e a neurociência explica. Preciso conseguir disponibilizar para o outro um espaço que ele precisa para visualizar e analisar diferentemente a situação que está a vivenciar, criando assim uma oportunidade para construir uma solução de ganhos mútuos, com critérios objetivos, não pensada até então.

 

Ir para o LUGAR DO VAZIO, é como se você deixasse momentaneamente de existir e ficasse totalmente na escuta e acolhimento do outro. Você literalmente abandona o ego, deixa de SER e passa a ESTAR num LUGAR disponível e com espaço suficiente para receber o outro porque VAZIO. É aqui, neste LUGAR DO VAZIO, que considero ser possível alcançar a pretendida imparcialidade, neutralidade ou multiparcialidade do profissional da Mediação, com verdadeira empatia e segurança num processo caracterizado, especialmente, por ser autônomo, confidencial, voluntário, flexível e informal.

 

Quando escutamos com genuinidade, as pessoas falam, partilham e se revelam. Assim, empatia está longe de significar me colocar no lugar do outro e entender o que o outro está a viver. Desde logo, eu não sou o outro, não vivi a sua história, nem tive as suas vivências e experiências. Menos ainda as suas emoções e sentimentos.

 

O LUGAR DO VAZIO potencializa a escuta ativa para aprimorar a capacidade de entender o que apresentado como tendo acontecido, na percepção de cada interveniente, assim como o que eles revelam como sendo o que sentiram com a situação.

 

Entender as diferentes percepções de acontecimentos e sentimentos, com ausência de julgamento, potencializa a possibilidade de comunicar o nosso entendimento sobre preocupações, temas importantes a serem aprofundados, bem como reconhecer emoções e sentimentos. Ser ouvido ajuda a acalmar emoções fortes, assim como ajuda a querer ouvir, ficando os intervenientes mais disponíveis para escutar as traduções do Mediador do que elas mesmas.

 

Comunicar com as emoções e demonstrando entendimento delas é atuar de forma empática, precisando assim de conseguir descrever a situação escutada objetivamente, sem juízos de valor, para, em seguida, identificar o que provoca aos sujeitos, passando a comunicar com essas emoções.

 

Na esperança de que a partilha do LUGAR DO VAZIO produza sementes, que se multipliquem e criem raízes, desejo ter proporcionado valor acrescentado, permanecendo disponível para caminharmos “junt@s”. Por fim, deixo o desafio para que você descubra o seu LUGAR DO VAZIO e consiga preenchê-lo com muitas histórias, versões e percepções distintas, de maneira a serem alcançadas as melhores soluções para cada interveniente que solicitar a sua intervenção na Mediação.

 

*Dulce Nascimento é Mestre em direito| Pós-graduada em gestão de pessoas| Especialista em prevenção, gestão e resolução consensual de conflitos| Mediadora certificada IMI, Master ICFML, DGPJ e CNJ| Advogada OAB e OAP| Advogada na mediação certificada IMI e Master ICFML| Advogada colaborativa certificada IPC| Diretora da DUMANA -consenso e desenvolvimento| Desenvolve funções institucionais e sociais no ODH, OAB e ICFML, assim como workshops e palestras| Autora e Coordenadora dos projetos a CHAVE para ADVOGAR na Mediação e Mediação vai à escola| http://dulcenascimento.online.

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