Os rostos de Djanira


Quando mais jovem, escolhi o Direito por acreditar que eu poderia ajudar às pessoas a buscarem aquilo que lhes pertencia e lhes dignificava. O ideal de Justiça! A decisão mais correta para aquele caso concreto. Com os anos, percebi que identificar direitos inseridos na lei e propor ações, quase que “automaticamente”, era esvaziar esse propósito. Havia algo mais que eu precisava descobrir!


Durante algum tempo, tive a oportunidade de trabalhar em demandas de massa, com comunidades quilombolas, com pessoas ameaçadas de perderem suas casas e seus trabalhos de um dia para o outro, com pessoas que precisavam urgentemente de medicamentos e remédios para manter suas vidas, com homens e mulheres cujas tradições culturais e a palavra eram mais importantes do que um pedaço de papel, tecnicamente denominado contrato. Para mim e para meus colegas advogados, muitas vezes era difícil entender qual seria a real pretensão, o que justificaria atos hostis, mal-entendidos, reuniões polêmicas, enfim, em que consistiam determinadas atitudes e contextos.


Comecei a sentir que era necessário ser menos “legal” e mais humana. Era preciso ir ao local investigar o conflito, conversar e me aproximar das pessoas, escutá-las, descobrir suas reais necessidades e, depois dessa preciosa análise, ponderar, avaliar e chegar a soluções sustentáveis para todos aqueles que estivessem envolvidos.


Uma lei, uma sentença ou uma decisão administrativa nem sempre refletiam a realidade! Verifiquei que, mais do que normas e decisões, as pessoas precisavam de um verdadeiro processo de acolhimento, de respeito, de uma escuta mais acurada, livre de julgamentos e de aconselhamentos assertivos, de algo que lhes facilitasse o diálogo e que, como advogada, me fizesse exercer a empatia, no sentido de “visitar” o ponto de vista do outro e não no de me colocar no lugar do outro – algo que me parece impossível, na medida em que cada ser humano possui os seus filtros e a sua rica história de vida.


Encantei-me pela Mediação, com a possibilidade de ser uma Mediadora e por saber que, por meio de um processo sigiloso, confidencial, respeitoso, utilizando ferramentas e técnicas, eu poderia transformar “partes” em “pessoas inteiras”, tirá-las do anonimato e ajudá-las a criar, a entender os seus conflitos, a enxergar neles a oportunidade de evoluir, enfim, a reconhecer e a se apropriar do papel de protagonistas de suas próprias vidas.


Aprendi que um pedido de desculpas, um elogio ou um reconhecimento externados numa sessão de Mediação, na maioria das vezes, valem mais do que uma polpuda indenização, porque a perda, a falta, a omissão, a raiva, a dor e outros sentimentos possuem um tempo de maturação e precisam ser trabalhados e compreendidos para serem ressignificados.


Lacan afirma que: "Toda palavra tem sempre um mais além, sustenta muitas funções, envolve muitos sentidos. Atrás do que diz um discurso, há o que ele quer dizer e, atrás do que quer dizer, há ainda um outro querer dizer, e nada será nunca esgotado."


Cabe assim, aos que trabalham com a Mediação, a nobre tarefa de buscar exatamente o que está por trás desse “querer dizer” dos mediandos e encontrar, nesse lugar tão cativo, o incentivo para que busquem soluções construtivas que beneficiem a cada um dos envolvidos.


Há pouco tempo, tive a grata surpresa de ser levada por meu filho e por meu marido à exposição da pintora Djanira, que sempre apreciei pelos traços criativos e pelas cores vibrantes. No meio da exposição, pude notar que, apesar do brilho e vivacidade das telas, os personagens não possuíam rostos. Não sou especialista em obras de arte, apenas uma entusiasta da pintora, mas, naquele momento, pensei se Djanira, ao pintar aquelas obras, não teria tido o intuito de nos mostrar que, às vezes, perdemos nossa identidade diante das dificuldades da vida.


Assim são os mediandos quando chegam às salas de mediação! Diante de uma tela em branco, trazem somente contornos, revelando seus rostos ao Mediador por meio dos seus relatos, dos seus choros, de suas necessidades não atendidas durante a sessão. Chegam, frequentemente, exaustos de brigas e com muito ainda por dizer, demonstrando que foram perdendo a cor, a força, o brilho, a vontade de se expressar, a coragem e, que depois de uma escuta zelosa, de um acolhimento, de um olhar mais direcionado do Mediador, vão se reencontrando, a seu tempo.


Hoje, acredito que encontrei o Direito que eu tanto buscava na juventude. A Mediação e outros métodos consensuais me transformaram numa profissional muito mais consciente e atenta ao “querer dizer” do outro, às suas reais intenções, aos seus interesses e necessidades, aos verdadeiros rostos. Fizeram com que eu descobrisse que a dignidade almejada no passado é conquistada por cada ser humano, quando esse exerce, junto com o outro, seus poderes de fala, de escuta e de ação para construir uma solução realmente efetiva e adequada para ambos e que a Justiça – preconizada pelo Direito –, é possível de ser alcançada, desde que se escolha o caminho certo a se trilhar.



Ana Claudia Paranaguá é advogada colaborativa, mediadora, consteladora sistêmica e coach. É sócia da Atos Facilitação de Diálogo, é uma das Coordenadoras do Café com Mediação-Cap. Rio e é membro da Comissão de Mediação e da Comissão de Práticas Colaborativas, ambas da OAB/RJ.

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