A colaboração em tempos de pandemia

 

O isolamento social imposto à grande parte da população mundial trouxe desafios de muitas ordens: políticos, econômicos, financeiros, sanitários, de saúde, familiares etc. Todos eles exigem decisões rápidas, eficientes e que estejam baseadas em valores e princípios que surgem de uma nova forma de pensar e ver o mundo. A verdade é que a antiga forma não nos traz soluções adequadas.

 

Estamos diante de uma crise mundial que descortinou a ineficiência dos sistemas políticos e econômicos originados do “laissez faire”. Empresas estão quebrando, contratos não estão sendo cumpridos, salários não estão sendo pagos, famílias estão se desfazendo, pessoas estão morrendo. A versão completa da qual a expressão “laissez faire” faz parte é “laissez faire, laissez aller, laissez passer, le monde va de lui même”, cuja tradução livre seria “deixai fazer, deixai ir, deixai passar, o mundo vai por si mesmo.”

 

Pelo visto, o mundo continuará caminhando por si mesmo, o que custará a vida de muitos (aqui, a vida em seus múltiplos aspectos: emocional, afetivo, financeiro, psicológico, físico etc.). Sempre custou, na verdade. Mas agora percebemos, com maior claridade, que o mercado, sozinho, não consegue regular tudo. Apesar dos esforços de alguns Estados visando à recuperação da economia, à manutenção dos trabalhos, à prestação de saúde, estamos todos, na verdade, por nossa conta e risco.

 

Gosto de usar a analogia do barco. Estamos todos no mesmo barco, mas sem um condutor. Estamos à deriva, mas ainda com os remos. Para sairmos do lugar, precisamos todos remar juntos. E rema-se junto quando nossas decisões levam em conta também o outro.

 

Estamos observando um movimento de viés comunitarista. As decisões devem ser tomadas a partir do que é bom para mim e também para você. Diante da ineficiência de nossos governantes, dependemos cada vez mais uns dos outros para sobrevivermos, para mantermos nossos empregos, para mantermos nossas relações, para mantermos nossa sanidade. Na lógica anterior, delirante, individualista, egoísta, movida por um só propulsor, o capital, não tínhamos muito tempo de nos olhar, ou isso ficava para outro momento, se tivéssemos tempo e... dinheiro.

 

O isolamento nos fez parar. E pensar. E repensar nossa vida frenética e individualista.

 

Mas estamos todos no mesmo barco. Sempre estivemos. Uma realidade inconteste, diante da crise que assola o mundo todo, todo mundo, ao mesmo tempo, de forma desenfreada. Estamos percebendo que só conseguiremos sair dela se soubermos nos unir, somar esforços, num grande sistema colaborativo global, desde a forma como nos organizamos dentro de casa, como lidamos nossos chefes e subordinados, até a forma como os Estados se relacionam com seus cidadãos e com outros países.

 

A pandemia nos convida, assim, a reaprendermos a arte do cuidado, o que pode desencadear novas formas de cooperação e de trabalho. Basta nos organizarmos. Basta sabermos remar.

 

E como remar?

 

Aprendemos, por meio das lições sobre gestão de conflitos, que toda crise é uma oportunidade de mudança. Se pensarmos bem, grandes mudanças da humanidade ocorreram por conta de guerras, crises econômicas e epidemias.

 

O que precisamos fazer é escolher a melhor forma de gerenciar essas crises, de resolvê-las. Então é preciso escolher meios de resolução de contendas que privilegiem a cooperação e o consenso. Ou seja, meios que se utilizam do diálogo. Precisamos dialogar, conversar, sempre e mais do que nunca.

 

A primeira lição é: olhe o outro e coloque-se no seu lugar. A empatia garante que cheguemos a soluções e a saídas que beneficiem todos. Sem ela, as soluções, provavelmente, só serão boas para uma determinada parcela de pessoas, ou para apenas uma.

 

Então, não podemos encarar o outro como oponente ou inimigo. Todos fomos, em maior ou menor grau, impactados pela crise. Então, a análise dos impactos sentidos por cada um para o alcance de uma solução de ganhos mútuos dependerá de uma disposição para a escuta e para se colocar no lugar do outro, para ver o mundo por meio de suas lentes. Somente assim, é possível alcançar uma saída boa para todos.

 

Eu poderia parar por aqui, porque acredito que muito se consegue apenas com a disponibilidade de se colocar no lugar do outro, primeiro passo da verdadeira arte do cuidado e do afeto. Mas outras pequenas lições precisam ser ressaltadas.

 

Saiba como conversar. Não basta apenas querer conversar. A comunicação é uma arte. Dependendo da forma como falamos, podemos desencadear grandes conflitos. Ou seja, comunique-se de forma não violenta, isto é, sem atacar ou se defender, sem julgar, falando apenas dos seus sentimentos.

 

Seja criativo. A sua criatividade é uma grande aliada. Normalmente, o nosso potencial criativo surge de nossas crises. Grandes poetas, inventores, artistas criaram suas grandes obras nos períodos mais difíceis de suas vidas. Ou seja, este é o momento ideal para boas idéias.

 

Portanto, não se contente com apenas dois caminhos a seguir. Há muitos outros. Pense e estimule o outro a pensar também junto com você.

 

Essas são pequeninas lições de como sermos colaborativos, atitude que garantirá a nossa sobrevivência nestes novos tempos. Antes de ser uma imposição, ficar em casa é a nossa primeira atitude colaborativa, a fim de evitar o nosso contágio e o dos outros. A manutenção de nossos empregos e renda, contratos e de tantas outras relações que estabelecemos somente será possível por meio de atitudes colaborativas. Força, marujos. O remo é nosso.

Compartilhar no Facebook
Please reload

Siga
Procure por  assuntos:
Please reload

  • Facebook Social Icon

© 2017 por Ana Kucera