O tempo, as relações e a habilidade para lidar com conflitos

06/20/2020

 

Neste momento de distanciamento social com a Covid-19, a humanidade está sendo convidada a viver em um tempo desafiante: de mais recolhimento para quem pode ficar em sua casa, de mais tecnologia para manutenção das atividades profissionais para quem está desenvolvendo teletrabalho e de conexão com outras pessoas por meio de ligações, áudio e vídeochamadas para quem deseja manter os relacionamentos interpessoais.

 

E diante desses desafios, quais habilidades você está descobrindo em você?

 

Para quem está exercitando a solitude, diversos dilemas podem emergir: como lidar com meu eu?

 

Para quem está convivendo com alguém, diversos conflitos podem surgir: tenho receio ou vontade de brigar? É possível que você se identifique com um desses dois padrões.

 

Friedrich Glasl destaca que, entre o receio de conflitos e a vontade de brigar, há a habilidade em conflitos, entendendo que:

 

“Agressões são energia: eu as transformarei em energia positiva!

 

Conflitos ajudam a livrar-se de convencionalismos!

 

Diferenças são vitais; trabalhar as diferenças enriquece a todos!”

 

Segundo esse autor, quando as pessoas se conscientizam dos seus medos estão caminhando em direção da autoafirmação em conflitos para “os diversos participantes de um conflito terem basicamente o mesmo direito existencial, e assim, o direito de autoposicionamento”.

 

É o direito de existir, o direito de se posicionar, de estar consigo, com as demais pessoas e na sociedade percebendo se: eu tenho um conflito ou o conflito tem a mim?

 

Se o conflito tem a mim, minha ação pode não ser em direção aos meus objetivos e sim agindo a partir do medo: o que é importante para mim deixa de ser considerado para reagir por meio de padrões inconscientes de luta ou fuga.

 

Eu pude experienciar a potência do medo quando, morando em Maceió, soube das medidas e ações de combate ao coronavírus nos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro uma semana antes das adotadas no estado de Alagoas.

 

Voltar para a minha cidade natal foi a primeira decisão que tomei após confirmação do teletrabalho, home office, pegando o primeiro voo disponível na madrugada.

 

E o que descobri nesse processo: meu medo não era da morte. O meu medo era não estar em paz com os meus conflitos e a morte interromper a possibilidade de transformá-los[1].

 

Aprendi nesse período de isolamento social uma nova habilidade: perdoar.

 

Frederic Luskin descreve o perdão como “a capacidade de viver a vida sem ofender-se e sem culpar alguém quando magoado, e de contar histórias que denotam paz e compreensão – é uma opção que pode ser praticada em diversas situações”.

 

Essa concepção de perdão está conectada com a autorresponsabilidade que a Comunicação Não Violenta[2] tem como base: assumir a minha responsabilidade pelo que sinto.

 

Assim como essa perspectiva do perdão por meio da contação de histórias conecta-se aos Processos Circulares, no âmbito das Práticas Restaurativas[3].

 

Faço referência tanto à Comunicação Não Violenta como às Práticas Restaurativas em razão de terem sido os elementos fundamentais para a descoberta da minha habilidade de perdoar.

 

Com o cancelamento dos encontros presenciais nesse período, as opções virtuais surgiram como alternativa para a manutenção de atividades anteriormente planejadas, como os encontros dos Grupos de Trabalho de Práticas Restaurativas do Mediare e da Ordem dos Advogados do Brasil – OAB-RJ, e das Reuniões de Projetos da Base Colaborativa.

 

Foi na preparação desses encontros que tomei consciência dessa habilidade relacionada ao perdão e por isso compartilho, a seguir, roteiro que pode ser multiplicado por qualquer pessoa que se proponha a oferecer um tempo para o compartilhamento de vulnerabilidades, com honestidade e empatia.

 

A proposta do Círculo de Cuidado é criar, mesmo de forma remota, um espaço para contação de histórias, quando as pessoas têm oportunidade de responder às perguntas geradoras, com a gestão compartilhada do tempo de fala e exercício de uma escuta empática, sustentando os silêncios e honrando as diferentes experiências de vida.

 

Cada pessoa pode falar sem ser interrompida, sabendo que quem escutar não dará conselhos ou respostas para as suas questões, estará ali presente e disponível para cocriar o encontro.

 

- Cerimônia de Abertura: Leitura de um trecho do livro Esperança Ativa

 

“Uma nova história de poder

 

A palavra poder vem do latim possere, que significa “ser capaz de”. O tipo de poder em que vamos nos concentrar agora não é sobre dominar os outros, mas sobre ser capaz de lidar com o caos no qual vivemos. Em vez de basear-nos em quantas coisas materiais ou status nós temos, essa visão de poder está enraizada em ideias e práticas, em qualidades e relacionamentos, em compaixão e conexão com a Teia da Vida.

 

Uma pessoa que adotou o modelo colaborativo de poder foi Nelson Mandela. No início dos anos 1980, o governo do apartheid da África do Sul possuía um exército altamente treinado com armamento de ponta e mísseis nucleares. Mandela, representando o Congresso Nacional Africano (CNA), estava preso fazia mais de vinte anos. Enquanto muitos temiam que fosse necessária uma guerra civil para acabar com isso, o apartheid não terminou por causa de uma vitória na batalha. Em vez disso, a transformação ocorreu através de debates e acordos. Para que esse processo se iniciasse, foi preciso primeiro, como Mandela disse, “dialogar, dialogar, dialogar e não guerrear, guerrear, guerrear”. Em sua autobiografia, Longa caminhada até a liberdade, ele descreveu que chegou à decisão de levar o processo adiante enquanto estava no confinamento da solitária:

 

            Minha solidão me deu uma certa liberdade, e resolvi usá-la para fazer algo que vinha ponderando há muito tempo: iniciar debates com o governo. Isso seria extremamente delicado. Ambos os lados consideraram as discussões como um sinal de fraqueza e traição. Nenhum deles viria à mesa até que o outro fizesse concessões significativas. Alguém do nosso lado teve que dar o primeiro passo.

 

Quando reagimos a uma situação de maneira a promover a cura e a transformação, estamos expressando poder. As contribuições de Mandela para o estabelecimento de uma democracia multirracial na África do Sul nos oferecem um exemplo maravilhosamente inspirador.

 

Como Mandela não tinha autorização do comitê organizador do CNA, iniciar conversas com o inimigo poderia ser visto como traição ou como oportunismo. Dar este primeiro passo para a paz exigiu coragem, determinação e perspectiva. Qualidades internas como essas são frequentemente consideradas como coisas que algumas pessoas têm e outras não. Essas qualidades, no entanto, estão ligadas a habilidades que podemos desenvolver e práticas que podemos aprender. Pensar em coragem e determinação como coisas que fazemos e não como coisas que temos nos ajuda a desenvolver essas qualidades, que emergem do nosso envolvimento com situações reais e da dinâmica que surge de nossas interações. Essa abordagem é relacional, e chamamos a isso de poder-com.”[4]  

 

Chegância:

Com você está chegando? Respondendo como se fosse uma metáfora com elementos da natureza.

 

Primeira rodada:  Que habilidades você está reconhecendo em você neste tempo de distanciamento social?

 

Segunda rodada: Se você pudesse convidar alguém para estar com você neste momento, que habilidades essa pessoa teria que ter para somar às suas?

 

Terceira rodada: Se você pudesse presentear o mundo com uma habilidade específica neste momento, qual seria?

 

Cerimônia de encerramento:

 

Música - com a letra compartilhada para todos cantarem juntos...

 

Emoção vs. Razão Referências bibliográficas: Van der Kolk, B. A. (1994). The body keeps the score: Memory and the evolving psychobiology of posttraumatic stress. Harvard review of psychiatry, 1(5), 253-265.

 

 

[1]Sobre transformação dos conflitos.

 

[2]Sobre a CNV.

 

[3]IIRP.

 

[4]Esperança Ativa pp. 109-110.

 

 

Cristina Lobato - autora do livro Ciranda do SER sobre Comunicação Não-Violenta. Advogada formada pela UERJ. Mestre em Bens Culturais e Projetos Sociais pela FGV- CPDOC. Instrutora de Práticas Restaurativas certificada pelo Internacional Institute for Restorative Practices (IIRP). Formação em Conferência Vitima Ofensor e em Estratégias de Trauma e Resiliência pela EMU - EUA. Coordenadora do Grupo de Trabalho de Práticas Restaurativas do MEDIARE e da Comissão de Mediação de Conflitos da OAB-RJ. Professora convidada do FGV Law Program. Corpo docente da Pós Graduação da NEZO. Líder do Círculo de Comunicação Não-Violenta da Base Colaborativa Rio.

 

 

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