Para transformar o mundo*

 

Gostava de acordar cedo e esperar, sonolento, minha mãe me chamar para a escola. Nas férias, entrava sorrateiro na cama de meus pais e me aninhava entre eles até a hora em que sentia o cheiro da manteiga derretida no pão me esperando na mesa do café. Esse tempo era um tempo estendido e mágico. Não podia então imaginar que ele iria se esgarçar e tomar cores menos luminosas.

 

O primeiro impacto aconteceu em uma dessas férias, quando, a caminho do quarto deles, ainda um pouco sonolento, escutei gritos. Perdi-me perdi no corredor, antes tão familiar, agora desconhecido. Escutava uma voz grossa alternada com soluços. Nesse dia, não consegui engolir o café da manhã.

 

O clima em casa foi mudando. Foram tempos de tempestade, mesmo com o céu azul de inverno. Nada nos aquecia. Era sempre noite. Silenciosa e fria. Eles se evitavam e a bebida passou a ser frequente. Dias de ausências longas e paciência curta.

 

Sem entender tantas mudanças, me questionava se o motivo da transformação era eu correr pela casa ou brincar fora de hora. A insegurança me invadiu. As visitas da minha mãe à escola eram mais frequentes, acompanhadas das suspensões. As notas despencavam. Colecionava tantos zeros no meu boletim que “mais parecia um colar de pérolas”, disse meu pai uma vez.

 

Afastei-me dos amigos. Brigava nos recreios. O futebol, que antes era o meu passatempo predileto, não me atraía mais. Os tapas passaram a ser violentos e as madrugadas longas. Espiava pela fresta a louça do jantar em cacos pelo chão. As noites de ausência se transformaram em semanas, até que ele nunca mais apareceu.

 

Fiquei dois anos sem ver meu pai. Minha mãe me explicava que ele era um bandido, só bebia, nos traía com outras mulheres. Tinha nos esquecido. Dizia que podia se virar muito bem sem ele, e que agora eu era o homem da casa. Meu pai perdera o emprego por conta da bebida. Aos sete anos, tentava me achar forte e poderoso para poder substituir meu primeiro herói. Como ficar no lugar de quem me levantava nos braços, me jogava para cima e corria comigo no parque? Eu me sentia traindo essa figura que tanto amava, que largou a minha mãe frágil e insegura, uma mulher que, agora com ódio, roía as unhas antes longas e vermelhas.

 

Nunca mais fui o mesmo. Minha alegria de viver se partiu como a louça. O cheiro de pão com manteiga na chapa hoje me embrulha o estomago. Julgava-me culpado pelo fim do casamento. Depois de um tempo, escutei minha mãe dizendo a sua irmã que iria colocar meu pai na cadeia se ele não ajudasse na casa. Tinha pesadelos imaginando-o na prisão, cheio de monstros querendo devorá-lo. Acordava chorando e sem coragem de contar a ninguém os meus medos. Era quase feio gostar do meu próprio pai.

 

Quando nos reencontramos, ele tinha outra mulher e eu outros irmãos. Nós nos olhávamos curiosos e receosos, todos achando que alguém iria usurpar o pai. Minha madrasta não interagia comigo, receosa de que contasse a minha mãe o que se passava em sua casa. As duas já tinham brigado e não se falavam mais. As visitas eram raras. Era um escândalo na porta de casa quando meu pai se atrasava para me devolver. Aos poucos fui perdendo a vontade de sairmos juntos. A briga era tanta, e a cada atraso ou imprevisto ficávamos todos nervosos, cada um com sua razão.

 

Cresci matando meu herói no peito. Repeti ano, mudei de escola e de cidade. Troquei a convivência em casa pela rua, por amigos sem vínculo e sem interesse. Mas sobrevivi. Minha mãe não resistiu ao câncer e morreu quando completei 18. Meu pai vive solitário. Não temos intimidade e mal sei da vida dos outros irmãos.

 

Hoje sou pai.  Um turbilhão de memórias enterradas insiste em ressurgir. Quero trilhar outros caminhos, fazer uma história diferente. Com meu filho nos braços, me questiono: que pai eu serei? Como ser diferente, mesmo tão igual? Não posso garantir a duração do casamento, que juramos ser para sempre. Mas posso construir uma família no formato possível. Busco, dentro de mim, olhando essa semente frágil de gente, uma nova forma de me relacionar com respeito. Que eu desenvolva uma escuta ativa, mesmo nas horas difíceis. Que prevaleça o amor que conheci quando nasci. Que o choro do meu filho seja de crescimento e que eu possa estar ao seu lado para ampará-lo sem julgar. Preciso resgatar dentro de mim essa essência. Não irei repetir o modelo de sofrimento e violência, mas sim do carinho que tenho para oferecer. Foi fruto do amor que ele nasceu. Através dele posso transformar o mundo.

 

* Nota da Autora: Este é um relato fictício. Trata do conflito do ponto de vista de um filho diante do processo de separação dos pais. Tomei a liberdade de redigir em um tom mais literário, mantendo a visão de uma mediadora que presenciou vários casos, muito semelhantes, durante o trabalho no fórum.

 

** Sua trajetória profissional é voltada para a transformação das pessoas, em busca de maior realização pessoal e de uma sociedade mais solidária. A mediação, o Coaching e a arte são os principais instrumentos com que atua. Formada em comunicação Social na FAAP, obteve o MBA em Marketing pela FIA – USP, e certificação como Master Coach pela Sociedade Brasileira de Coaching. Formada em Mediação, Facilitação de Conflitos e Processos Circulares pela Palas Athena e pelo Instituto ISA- ADRS. Foi professora da Formação em Mediação, Facilitação de Diálogos e Construção de Consenso (ISA-ADRS – Palas Athena – SP). Como artista, trabalha com fotografia e outras mídias. É mediadora certificada pelo Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. Sua principal atividade é o coaching para executivos e empresas, e também para jovens em fase de definição profissional. Presta consultoria empresarial e organiza workshops nesse âmbito.

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