Rumo a um novo sentido de comunidade: os brasileiros e a pandemia

 

As questões do momento são: sairemos diferentes desta pandemia? Voltaremos ao normal? E o que seria exatamente voltar ao “normal”? Quem determinou essa tal normalidade? Pessoas assassinadas diariamente pela cor de sua pele, por seu gênero, por seu desejo sexual, por seus afetos; crises climáticas trazendo consequências seríssimas como a pandemia que estamos vivenciando... É para esse “normal” que queremos voltar?

 

Afetamos e somos afetados a todo o momento por tudo que nos cerca. Somos seres interdependentes e interconectados, entre nós mesmos e com o meio, e a pandemia aparece para nos mostrar a necessidade urgente de colocarmos em prática o nosso senso de comunidade. Neste momento, há um impacto social geral (a contaminação pelo coronavírus) decorrente de ações individuais (usar máscaras e álcool gel, lavar as mãos com água e sabão, cumprir o isolamento/distanciamento social...). É nossa responsabilidade assumir a consequência de nossos atos. Entretanto, para nós brasileiros talvez não seja tão simples.

 

O escritor Lima Barreto tem uma famosa frase que ilustra bem a nossa realidade: “O Brasil não tem povo, tem público”. Somos um público acostumado a delegar responsabilidades, delegar inclusive a nossa própria nacionalidade. Delegamos toda a responsabilidade ao Estado como se ela deixasse de ser nossa no momento em que elegemos nossos candidatos; assumimos que os impostos que pagamos nos eximem de qualquer tipo de atuação no nosso dia a dia. Abrimos mão de sermos atores sociais e nos colocamos no papel de meros espectadores. Há quem diga que isso vem do fato de que o sufixo ‘eiro’, presente na palavra brasileiro, usualmente designa profissão (como em engenheiro, cabeleireiro, enfermeiro), e não origem (como em argentino, italiano ou inglês). Talvez, por isso, não tenhamos elaborado nossa identidade, nosso senso de pertencimento, incapazes de desenvolver de forma plena nosso sentido de comunidade. Quem nunca disse, em algum momento, algo do tipo “Só podia ser brasileiro!”, “Brasileiro não tem vergonha!” como se fosse um estrangeiro em seu próprio país? Como bem colocou o escritor baiano João Ubaldo Ribeiro, o país melhoraria muito se acreditássemos que os brasileiros não são eles, mas nós. É exatamente quando a conexão entre as pessoas está debilitada que a violência acontece. Chegamos, então, ao momento extremo atual de embasar nossa comunicação em julgamentos ou estigmas, nos desconectando ainda mais daqueles que não compartilham dos  mesmos valores que os nossos, não conseguindo enxergar sequer nossas necessidades comuns, tais como autonomia, segurança, confiança, liberdade, apoio, ou seja, resumindo tamanha complexidade em algo tão simplista como “se não pensa como eu, é meu inimigo”, polarizando questões coletivas.

 

E aí chegamos naquele momento em que questionamos a capacidade do outro em sentir empatia. Paul Bloom, psicólogo canadense, defende a ideia de a empatia ser uma reação emocional, algo como um holofote que se limita a focar aqueles que já nos são próximos de alguma maneira, isto é, alguns indivíduos ou grupos pequenos, não permitindo que grupos maiores, a coletividade, aqueles que não estão em consonância com nossos valores também estejam no foco. Sendo assim, Bloom defende ainda que “a empatia distorce nossos julgamentos morais praticamente da mesma maneira que o preconceito faz”. Por isso, muitas vezes é comum observarmos diferentes grupos sociais demonstrarem empatia ou preconceito em uma mesma situação. Adolescentes de classe média, brancos, furtam dinheiro da mochila de seus próprios colegas dentro das escolas e são suspensos, enquanto menores de classe baixa, negros, furtam celulares de transeuntes e cumprem medidas socioeducativas. O próprio sistema social encarrega-se de manter estereótipos, disseminar preconceitos e alimentar a discriminação e a segregação, dividindo a sociedade. No nosso caso, dividindo de maneira tão profunda capaz de nos levar a um ponto de ruptura.

 

Torna-se imperativo, então, restaurar o nosso senso de comunidade e de solidariedade. Entender de uma vez por todas que as nossas necessidades - de proteção, autonomia, e até mesmo de comunidade - são as mesmas, embora os sentimentos decorrentes de sua não satisfação – impotência, tristeza, revolta, resignação - sejam diferentes. Entender que eu posso até não sentir empatia pelo outro, mas posso me solidarizar com o outro. A diferença está no fato de a empatia se limitar a uma relação entre indivíduos, enquanto a solidariedade engloba toda a sociedade, é a administração da responsabilidade do indivíduo para com a sociedade em que ele está inserido. É no momento em que assumirmos a nossa responsabilidade enquanto cidadãos que conseguiremos nos restaurar enquanto comunidade.

 

Que sigamos em busca de uma nova normalidade pós-pandemia. Precisamos saber aproveitar esta oportunidade para reaprender o cuidado com o outro, reconstruir pontes de solidariedade, restaurar, sob novas bases, nosso senso de comunidade. Usamos máscaras, mantemos distância social e ficamos em casa não só para não nos contaminar, mas também para não contaminarmos os outros. Entender que há grupos mais vulneráveis ao contágio talvez nos ajude a entender que há grupos mais vulneráveis na sociedade que demandam de todos nós mais atenção e mais cuidado. Talvez assim consigamos nos tornar uma comunidade em que todos possam ter suas necessidades levadas em conta e até atendidas. Uma comunidade em que todos sejam aceitos e respeitados pelo que são, independentemente de sua raça, de seu gênero, de seus desejos, de seus medos...

 

O primeiro passo nessa direção exige muito pouco de nós: use máscara e, se puder, fique em casa!

 

 

 

*Cristiana Miller caminhou pelos palcos, pelas salas de aula de inglês, pelos consultórios de psicologia clínica atendendo crianças e adolescentes. Tudo isso pra chegar até aqui, quando em 2015 conheceu a mediação de conflitos e se apaixonou ainda mais pela Justiça Restaurativa, quando vislumbrou uma oportunidade de realmente fazer a diferença. Desde dezembro de 2018 é facilitadora de diálogos no CEMEAR – Centro de Mediação de Conflitos, Métodos Autocompositivos e Sistema Restaurativo do Ministério Público do Rio de Janeiro.

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