Compartilhando divagações.... Ou Divagando por ai.....

Daniella Nakad*




Querido diário,


Você já deve estar pensando o que deu em mim hoje para começar a escrever tão cedo, né? Já conhece meu processo criativo catártico, meio caótico, mas que depois se harmoniza e reverbera por aí....


Agora me diga, como pode meus bilhões de neurônios eletrizados sinapsarem lançando conexões tão inesperadas entre o lindo encontro que tive com os mediadores do Blog Perguntas Poderosas, a triste despedida de minha tia querida horas antes desta reunião, o filme PK, da Netflix, que assisti ontem e a mediação que tanto me entusiasma e transformou minha vida?


São tantas associações que não sei nem por onde começar....


“Comece abrindo o canal da criatividade! Deixe as ideias saírem como chuva sem julgamento, deixando vir o que te habita e se surpreenderá com a beleza e potência que se revelam”, você dirá para mim.


Tudo a ver com cérebro inspirado ou ocioso, difuso que permite a abertura para um grande fluxo e conexão. Quando deixamos a mente divagar, abre-se um caminho para a inspiração. Diferente do cérebro focado que aciona determinadas regiões para se concentrar, resolver problemas, olhar para detalhes.


O contorno, a formatação e as críticas chegam depois, cada um a seu tempo e com sua importância.


Como a criatividade, as emoções precisam deste espaço de expressão, deste mover-se para fora. Primeiro sinto dentro, integro em mim, extravaso, observo, processo, modulo.


Não parece uma dança? Uma expansão, contração, um afastamento e aproximação?


Como objetivar emoções, colocar em palavras uma necessidade, interesse quando seu organismo ainda está tentando dar conta do corpo pulsante, do calor no coração ou do frio na barriga? Quando o sujeito do inconsciente quer manifestar seu desejo, o superego o segura e o ego desnorteado não sabe o que fazer e se defende com todas as forças?


Acolhimento, sensibilidade, base segura, estar lado a lado deve ser o primeiro passo a tomar conosco e com aqueles de quem cuidamos. Pausas, movimentos, avança e recua, altos e baixos, tudo possível no baile da vida onde todos somos anfitriões e convidados.


Amado diário, em tudo vejo mediação. Fui mesmo atravessada por esse saber. Impossível que seja diferente. É como um analfabeto quando aprende a ler, não dá para voltar atrás!


Vivo a mediação como um convite e cultivo diário de comunicação não violenta comigo mesma, de negociação e de cuidado com meus conflitos. Tudo começa em nós para podermos fazer com o outro, em qualquer lugar ou espaço que estejamos.


O ser humano é muito especial, não acha?


Nossa complexidade, indeterminação, santidade e loucura, criatividade e desamparo, potência e insuficiência me fascinam e também causam medo e por vezes decepção. É um conhecido/desconhecido que me atrai.


Sim, sou uma otimista e sempre confio nas pessoas até que elas me provem o contrário e, se vacilarem, está previsto no jogo humano e acredito que a próxima jogada sempre pode ser diferente.


Nossa espécie é a única no reino animal que depende da própria espécie para se tornar humana, para se constituir sujeito e aprender as regras civilizatórias. O cuidado e a colaboração foram os diferenciais do homo sapiens para sobreviver e isso está impresso em nossos genes como um senso de gratidão e obrigação para com o semelhante e assim a civilização avança. Este saber está em nós, mesmo que esquecido ou desfocado para alguns. O caminho é colaborar e jogo luz nisso.


Você me conhece, diário, quantas facetas tenho, quantas dimensões me constituem, tantos atravessamentos...


Assim como eu, o outro e como poder/querer nos definir a partir de um rótulo, uma formação, um título, um erro, uma identidade? É muito reducionista e empobrecedor! Somos iguais e diferentes e únicos, um mundo singular a ser explorado e novamente vislumbro a dança entre saber e não saber, entre luz e sombra.


Neste sentido que fui tão tocada pelo filme PK, lúdico, leve, divertido e tão profundo!


O filme fala da chegada à Terra de um alienígena. Ele tinha um olhar virgem, ingênuo e curioso, não falava língua alguma, porém seu sistema de comunicação era precioso. Possuidor de olhos e orelhas bem avantajadas, se abre também com seus poros e corpo, sem barreiras, para literalmente fazer um download do humano e incorporá-lo, senti-lo e tentar compreendê-lo empaticamente, o que não foi tarefa fácil!


Em seu caminhar pelo planeta, mais especificamente na India, imagine a experiência, um verdadeiro turista, ou talvez um antropólogo, foi se deparando com uma imensidão de cores, cheiros, ritmos, sentimentos, incoerências e campos de forças, interagindo com o melhor e o pior das pessoas e servindo de canal de ressonância.


Em seu processo de entendimento fazia muitas perguntas, sempre a partir de seu não saber, e perguntava para, genuinamente, compreender e isso gerou muitos movimentos de reflexão, reação, oposição e revolução em todos e tudo à sua volta.


Como uma telespectadora e mediadora atenta e com um toque Foucaultiano[1] nas veias, fruto de meus atravessamentos, percebi como os conflitos (no filme e na vida real) se apresentavam como grandes oportunidades de modificação do que não funcionava, do que precisava ser atualizado, implicando em empoderamento dos cidadãos e fortalecimento dos laços sociais e igualmente, os conflitos também denunciavam os furos no tecido social deixando evidente as tentativas de abafá-los, reprimi-los para a manutenção de um status quo, um sistema de dominação e desigualdade, onde poucos se favorecem em detrimento de milhões de pessoas.


De uma maneira geral, artística, o alienígena PK foi um grande mediador e aqui fiz apenas um recorte.


Em nosso encontro de mediadores, onde dialogamos sobre a Ética na mediação, discorremos sobre a mediação que sonhamos, acreditamos e trabalhamos para divulgar e fortalecer.


Um saber vivo, dinâmico, transdisciplinar que traz uma nova lógica, uma nova forma de pensar, agir e existir. Um instituto que está em sintonia com as demandas e necessidades de nossa sociedade, atuando a nível micro, com a possibilidade de modificação psicossocial das pessoas envolvidas e no macrocosmo, a partir do efeito multiplicador desta aprendizagem nas relações humanas. Uma proposta de transformação na cultura, devolvendo ao cidadão as rédeas de condução e responsabilização por suas vidas, investindo na qualidade relacional pavimentando a coconstrução de um mundo melhor para se viver, juntos, misturados e com respeito.


Para que esta mediação se sedimente, temos muitos desafios, a começar por nós, na constante avaliação e reflexão de nossa prática, nas ações e intervenções que adotaremos e isso é Ética.


Nada simples, amigo diário, pois Ética não é uma tabela com as orientações do que é certo ou errado fazer, as decisões não são lineares. Como diz o professor Clóvis de Barros Filho, a ética é uma inteligência compartilhada a serviço do aperfeiçoamento da convivência. Por isso precisamos falar, estudar, trocar e pensar sobre isso.


Parafraseando minha querida mestre Eva Jonathan, que possamos todos nós, participantes da mediação, ser transformados como pessoas, nos percebendo, nos modificando, evoluindo e sendo melhores na nossa própria dança, assim como na dança da vida.


E você, querido diário, vai me perguntar qual a conexão que tudo isso tem com minha Tia. E te digo que foi pelo legado que ela deixou em mim: o seu olhar ingênuo, seu riso aberto, sua espontaneidade, bondade e sua imensa alegria de viver.


Que façamos acordos que atendam à Vida.


Vamos plantar sementes de amor em nossa Nação, conviver com as diferenças e isso é Revolução! [2]




*Sou Daniella Guimarães Nakad de Mello e Souza, mais conhecida por Dani Nakad. Sou uma entusiasta da mediação. Quem me apresentou e me colocou neste mundo, há 6 anos atrás, foi minha querida professora e orientadora Eva Jonathan. Sou mediadora sênior, atuo no âmbito privado e no Cejusc da Capital e realizo trabalho de mentoria com os mediadores do Cejusc de Santa Cruz, RJ. Fiz minha formação na Escola de Magistratura do RJ, mantenho um percurso continuo de aprimoramento de minhas competências, especialmente no campo da comunicação e negociação – eixos fundamentais no trabalho do mediador. Pegando minha capacitação, acrescento minhas formações acadêmicas: sou economista, psicóloga, especialista em psicologia jurídica e psicopedagoga, com experiências profissionais em diferentes áreas, misturo nesse bolo atravessamentos muito especiais, como a conjugalidade, a maternidade, meus processos terapêuticos, dança, meio ambiente e lanço um punhado de talento natural para estar com pessoas e com a diversidade. Sinto que montei uma malinha interessante de recursos e repertório para poder, como mediadora e psicóloga, cuidar e lidar melhor com a complexidade de nosso objeto de trabalho: o ser humano e suas relações no mundo contemporâneo.

[1] Foucault fala da Ética como Estética da Existência, compreendida como modo de subjetivação. Capacidade de nos autogovernarmos e não controle dos corpos. [2]Trecho do verso que criei em meu artigo “Contribuições de um olhar psicológico à mediação de conflitos familiares”.

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