Desafios de vida de expatriada utilizando ferramentas de mediação


Carla Alcofra*



Como é sabido por todos, morar fora do nosso País traz muitas oportunidades de aprendizado, desenvolvimento e ampliação de network. Isso tudo me veio à cabeça quando meu marido disse que foi transferido para Houston, TX. Naquele momento, veio o Afago (ou reforço positivo) porque meu marido precisava ouvir incentivo da minha parte. Usamos essa ferramenta na sessão de mediação para um comportamento positivo. E assim foi nossa atitude de Afago naquele dia em que ficamos sabendo que íamos mudar para outro País.


Permite conhecer uma nova cultura, viajar para novos destinos, crescer como indivíduo e como profissional? Sem dúvida. Mas o texto de hoje não é sobre o que todo mundo espera ao embarcar rumo a um desafio no exterior, mas contar minha experiência mostrando a utilização das ferramentas que usamos na mediação. É uma forma de mostrar como as ferramentas são muito mais reais e presentes no nosso dia a dia do que imaginamos.


Decidi abordar como foi nossa estadia em Houston - Texas! Ao chegar, você se vê em um misto de empolgação e insegurança, ou melhor, aquele frio na barriga por estar num lugar diferente com cultura e costumes diferentes. Se, por um lado, temos a chance de conhecer novas culturas, aprender outros idiomas e vivenciar coisas incríveis conhecendo o mundo “lá fora”, por outro, temos que aprender a lidar com a saudade e o fato de estarmos distantes da família e dos amigos… Nos tempos atuais, temos ajuda da tecnologia, que facilita muito a nossa vida, por exemplo: Facebook, WhatsApp, Facetime, Skype, Tik Tok... Obrigada a essa tal da tecnologia que temos à nossa disposição, que ameniza a saudade. Mas ela não substitui o abraço apertado nem o beijo molhado na bochecha, o cheiro do perfume. Mas não é de saudade que eu venho falar aqui e sim da minha temporada em Houston - TX.


Primeiro desafio: a língua. Mas logo arrumei uma professora de inglês que levarei para minha vida! Americana com mais alma latina que já conheci.


Até agora ainda não contei que o medo não podia me dominar. Aliás, não podia mesmo nem demostrar para os meus filhos que por dentro o frio ia até a espinha dorsal! Rsrs


Mas como boa mediadora que sou, exerci a minha Escuta Ativa antes como forma de adquirir mais informação sobre o novo lugar. Que venham os desafios!!! Através da Escuta Ativa procurei fazer várias perguntas abertas para pessoas que encontrei logo após minha chegada. Não posso esquecer que, no dia que cheguei a minha nova casa, fui recepcionada pelo meu vizinho argentino!! Tinha que ser latino, rsrs. As perguntas abertas me ajudaram a entender a cultura local e como lidar com as dificuldades iniciais, além de me proporcionarem a possibilidade de fazer outras perguntas que não tinha pensado inicialmente. Recebi tanta informação que não achei difícil a minha adaptação na terra do Tio Sam. Consegui tirar meu Social Security, documento de imposto parecido com nosso Cadastro Pessoa Física - CPF. Depois fiz minhas aulas de autoescola para poder fazer o teste de direção e tirar minha driver’s license. Mais um frio na espinha que tinha que vencer. Ainda bem que utilizei as minhas perguntas e as minhas amigas brasileiras me deram várias informações, principalmente em relação à prova prática. Ufa! Mais uma conquista! Consegui minha carteira de motorista do Texas. Lá estava eu motorizada dirigindo pela grande Houston!! Lugares mais frequentados: supermercado, supermercado e supermercado. Se o Costco falasse... E assim, íamos superando desafios. Eu e meus filhos adaptados, o maridão seguindo trabalhando.


Independente da razão, se você está feliz com sua escolha, maravilha. Mas a maioria das mulheres, principalmente aquelas que tinham uma vida profissional estabelecida no Brasil, em algum momento, começam a sentir falta de trabalhar. Mas e aí? Os desafios só estavam começando. Eram tantos, entre os afazeres do lar e novos vizinhos, amigos. Mas ainda não contei que em Houston já tinha gente conhecida: minha prima e algumas amigas brasileiras, que me deram altas dicas para o meu dia a dia. Era um tal de compra isso, compra aquilo e lá eu ia comprando todos os eletros e eletrônicos. Como já falei, Costco era meu lugar predileto para essas compras! Assim, quanto a esse departamento, tirei de letra.


Para mais socialização, resolvi fazer HCC, um curso de inglês com pessoas do mundo inteiro. Ah, meus amigos do HCC... No início peguei uma professora coreana muito rígida que corrigia o sotaque quase com uma chicotada!! O pessoal latino como eu sofria nos dias de aulas. Né, Eligia?! I miss you...


Agora acho que o meu maior desafio foi quando fui fazer o curso de mediação e eu era a única brasileira no meio de muitos americanos que não falavam nada de português e o meu inglês misturado com portunhol. kkkk. Aliás, tinha sim uma americana que falava um pouquinho de português, o nome dela era Kimberly, moradora de The Woodlands (norte de Houston), que me ajudou muito!! Thank you so much, Kim!


E assim foi o primeiro, o segundo curso com esse grupo de alunos made in USA. Ops, não posso esquecer que no grupo tinha um indiano. Podemos afirmar que eu era a brasileira mais bem adaptada no meio dos americanos mais calorosos que conheci.


Bem, o tempo foi passando e com isso veio o Brainstoming, ou melhor, algumas ideias!! Imagine, crie e faça acontecer é essa a frase que me fez desbravar Houston!! E assim, lá fui eu. Conheci várias pessoas de quase todas as nacionalidades, entre essas pessoas, muitos brasileiros. Parecia que Houston era uma extensão do Brasil, bem assim...de tanto brasileiro que vive lá. Então, essa chuva de ideias é considerada ferramenta de cunho criativo e direciona a gente a um caminho, assim como chamamos numa sessão de mediação, quando o mediador consegue trazer para os mediandos chuva de ideias para trilhar um caminho satisfatório para ambos. E foi assim que me senti naquele momento: lotada de ideais para explorar aquele lugar de cowboys. Rsrs


Foi quando ficamos sabemos que nossa estadia seria interrompida, devido à pandemia da Covid-19, que estava assombrando o mundo. Esse vírus veio para bagunçar e criar instabilidade, principalmente na área da saúde e na economia mundial. Por incrível que pareça, fiquei mais triste de voltar para o Brasil do que quando tinha recebido a notícia de que seríamos transferidos para Houston - TX. Adaptei-me tão bem, meus filhos idem, minha cachorrinha nem se fala. Ela só tinha medo de ir tomar banho no Pet Smart, o resto tirava de letra. Adorava correr atrás do Lizard pelo jardim enorme todo para ela.


A tristeza bateu ainda mais diante naquele momento difícil em que o mundo estava passando por uma pandemia com tantas pessoas doentes e morrendo, passando por uma crise econômica com lojas e restaurantes fechando, deixando várias pessoas desempregadas. Eram tantas coisas difíceis, mas o que me acalentava é que estaria voltando para o seio familiar e isso não tem preço que pague. Mas, ao mesmo tempo, triste, bem triste em deixar minha cidade do coração onde por 02 anos fui acolhida por tantas pessoas que guardarei para sempre!! Talvez, se não tivesse primos lá, não tivesse me adaptado tão bem. Isso com certeza foi crucial para nossa adaptação num lugar tão diferente do nosso Brasil.


Com isso tudo isso acontecendo, veio o silêncio. A necessidade do silêncio no processo de mediação alimenta atitudes e ações criativas, para assim atingir as possíveis soluções, e assim foi que fiz. Um minuto de silêncio, por favor!!


Tem uma frase que cabe citar aqui: “O silêncio não é só o abandono transitório da linguagem, umas férias concedidas à palavra, senão que pode ser até uma forma de vida. A velha sabedoria indiana o considerou a forma mais perfeita de conhecimento” Ignacio Sánchez Câmara – Jornal ABC – Espanha, 7 de abril de 1.999.


Assim, o objetivo do silêncio naquele momento de retorno ao Brasil: que fosse um espaço para encontrar comigo mesmo e assimilar o que estava acontecendo e ganhar forças para fazer a minha mudança. Go back to Brasil! Na mediação, a ferramenta do Silêncio é super respeitada pelo mediador, não pelos mediadores em formação que estão ávidos para perguntas. Às vezes, é necessário respeitar esse silêncio porque traz atitudes reflexivas entre os mediandos.


Com a minha volta ao Brasil, mesmo sentindo muita falta de Houston, utilizei o enfoque prospectivo, ou seja, olhar para frente, focar no futuro e ter objetivos. Com o enfoque prospectivo, naturalmente se estabelecem objetivos e com isso ações concretas para atingi-los. Em vez de ficar pensando no que perdi, deixando minha pequena grande cidade: Houston.


Em resumo, as ferramentas da mediação estão muito mais presentes no nosso dia a dia do que imaginamos. E no momento que tomamos consciência disso, podemos, em alguns casos, fazer uso deliberado delas, no sentido de ajustarmos, quando necessário, nosso comportamento, visando não só conduzirmos nossa vida de forma mais positiva, como contribuirmos para a pacificação social.


Fazendo uma retrospectiva desses pouco mais de 02 anos, vejo como as ferramentas da mediação me ajudaram a lidar com um tipo de situação que normalmente é muito desconfortável para o ser humano em geral, a mudança. Por outro lado, sabendo lidar com a mudança e a encarando mais como oportunidade do que como ameaça, ocorre um grande crescimento pessoal. E isso é o que vejo que aconteceu comigo nesse curto espaço de tempo.


*Carla Alcofra = Advogada. Mediadora Judicial do TJRJ. Membro do Instituto dos Advogados do Brasil IAB. Executive Master de Estudos Avanzados em Mediación y Negociacion pelo Institut Universitarie Kurt Bosch em parceria com APEP. Membro da Comissão de Mediação da OAB/RJ (CMC). Mediadora certificada pelo ICFML.

Siga
  • Facebook Social Icon
Procure por  assuntos: