Desatando nós e construindo laços




Juliana Polloni*



Nossa cultura em torno da ideia do casamento é de unidade. Duas vidas se tornam uma vida. Nas histórias infantis, nunca soubemos o que acontecera com os casais que se uniram e “foram felizes para sempre”.


Hoje já sabemos que não é bem assim, mas, no fundo de nosso ser, ainda paira a sombra dessa cultura que foi construída ao longo dos anos, de que deveríamos encontrar nossos príncipes e princesas e sermos felizes para sempre.


Gosto de olhar para as construções sociais nas quais estamos imersos. Nas histórias que nos contaram, o homem é rico, nobre, valente, o grande salvador da mulher. E a mulher vulnerável, dependente, meiga, perseguida por uma bruxa (aqui a construção da rivalidade feminina, mas isso é para outro artigo). Que nó apertado já temos aqui! Papéis sociais construídos há tanto tempo, em épocas em que até poderiam fazer algum sentido, mas que, atualmente, já não cabem mais na realidade em que vivemos. E vale lembrar ainda que todos os casamentos imaginados nestas histórias são heteronormativos, ou seja, só foi possível imaginar o “felizes para sempre” entre um homem e uma mulher. E mais um nó aparece.


O comportamento dos noivos é interessante também de se observar. Muitas construções elaboradas pela indústria do entretenimento e de serviços giram em torno do tema. Quem casou sabe o quanto a criatividade e o dinheiro envolvido para responder a esse anseio social crescem a cada ano. O pedido, que a princípio não era uma tradição no Brasil, agora é um momento planejado, inclusive com a criação de negócios para esse fim. Ah! O amor! Quanto romance no ar! Será mesmo?


O dia da noiva, o vestido de casamento, o bolo, a festa, a lista de convidados, as roupas das madrinhas, os convites aos padrinhos e madrinhas que são feitos por meio de presentes, as flores, a música, o cenário dos sonhos, se seguirá uma tradição religiosa ou se será um hotel em local paradisíaco e tantos outros cuidados com o momento do “sim”. Por mais que saibamos que o “sim” é o começo da vida a ser construída, todos as atenções são voltadas para esse momento. E depois do “sim” como é que fica?


Antes de continuar esse passeio pela construção social desses nós que nos amarram, quero dizer que também passei por todo esse processo quando me casei e sei a força que há na expectativa por esse momento. Não sou contrária a tudo isso, meu objetivo aqui é trazer luz para o como essas necessidades vão sendo implementadas externamente por interesses muito diferentes daqueles que incorporamos e passamos a acreditar que tudo isso é pelo romance.


Toda essa construção chega na Mediação. Na maioria das vezes os casais procuram a Mediação com a ideia de que não dá mais para viverem juntos, sufocados pelos nós que os amarram, frustrados porque o romance se perdeu, se sentindo incompetentes porque não conseguiram o “felizes para sempre”.


Quando pergunto aos casais numa sessão de mediação “como vocês tinham combinado sobre isso no casamento?”, recebo a resposta de que não tinham combinado nada. Para os casais, toda a preocupação com o casamento está na ritualização dele e raríssimos são aqueles que se preparam para a convivência, ou, podemos dizer, “o dia depois do sim”.


Ter essa consciência das construções sociais que atravessam a sociedade contribui muito com meu trabalho como mediadora. A partir das narrativas predominantes, podemos ampliar o contexto e trazer outros olhares para a forma como as coisas foram sendo conduzidas até ali, sem a tomada de consciência sobre essas influências invisíveis e presentes em nossa vida.


Um caminho para desatar esses nós está na possibilidade de olhar para tudo isso, como quando olhamos um mapa na internet e diminuímos o zoom, mudando a perspectiva e vendo além do que estávamos vendo, olhando somente para o casal que está conosco naquela conversação. Perguntar, por exemplo, “quem mais pensa assim além de você?” ou “como esse assunto era tratado na casa de seus pais?” pode resultar nesse movimento de ir diminuindo o zoom da situação em concreto e trazer reflexão sobre as histórias que virão nas falas seguintes.


Acredito muito na potência da mediação de casais, não somente para os momentos de tomada de decisão ou ruptura. Acredito que, sendo o objetivo maior da mediação o restabelecimento da comunicação entre os interessados, poder transforar olhares e ressignificar as narrativas possibilita a construção da relação a partir de outros padrões, agora ajustados a partir da tomada de consciência, do alinhamento dos valores e necessidades de cada um, de acordos sustentáveis para cuidar dessas necessidades, da apreciação, da colaboração e de muitos outros frutos que podem emergir dessas conversas.


Eu trabalho com as famílias e casais a partir das práticas colaborativo-dialógicas e das narrativas. Acredito na potência do diálogo e nos caminhos que vejo as pessoas encontrarem para conviver e viver de forma mais saudável.


O nó aperta, não permite a maleabilidade necessária à atualização da relação. Muitos optam por cortar o nó, talvez por não terem acessado outros recursos e possibilidades.


O privilégio de ter a companhia capacitada de um mediador para fazer conversas de uma forma diferente da costumeira, conversas que ampliam, que incluem, que trazem clareza e um outro nível de percepção de si mesmo e do outro é algo que espero que todos um dia possam conhecer.


Das incontáveis horas que já estive em conversas com os casais percebo que, no mínimo, eles saem desse processo conversacional mais conscientes do que é importante para eles e podem fazer escolhas, por construir uma outra forma de se relacionar, sejam juntos ou separados, mas apropriados de si mesmos e enlaçados em seus valores. Acho que vem daí minha paixão por fazer o que faço, é encantador ver esses processos de desenvolvimento das pessoas, mesmo a partir de momentos desafiadores de suas vidas.


*Juliana Polloni – Mediadora familiar. Facilitadora de conversações colaborativo-dialógicas em famílias e organizações. Doutora em Serviço Social. Mestre em Direito. Advogada colaborativa. Especialista em Comunicação Não-Violenta. Professora, palestrante e autora de diversos artigos e obras nos temas ligados à mediação e à comunicação.


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