Sobre palavras e cores


Gilberto Martins de Almeida*

"Balanço", colorjet sobre cimento sobre azulejo







Sabemos que as palavras expressam ideias e impressões, e as cores as reforçam. Mas, às vezes, elas podem ser mais que isso. Por exemplo, codinomes lúdicos, como balanços que ajudam no vai-e-vem entre símbolos e pensamentos/emoções correspondentes. Com a vantagem de substituir o que seja difícil de verbalizar. Isto me vem à mente quando lembro do caso a seguir.


Antes, porém, um parêntese. Palavras e cores podem ser quentes, mornas ou frias, tanto no uso comum quanto no disco de Newton. Na mediação, costumamos empregar a palavra “adequado” para dar tom neutro e/ou positivo ao que pareça apropriado, ou seja, ela equivaleria a um cinza ou verde, frequência protegida. Nas cores, o magenta resulta de azul (frio) com vermelho (quente) e, sintomaticamente, soa morno. Significados semânticos e cromáticos que “medeiam”.


Retomando, o caso era especialmente complicado: sociedade familiar na qual trabalhavam pai e filhos, os quais trocavam agressões permanentes e veementes, frequentemente. O propósito havia sido de buscar a paz na empresa e na família, mas a coisa ia tensa e a perspectiva de avanço era pequena, tamanho o quadro de problemas e a resistência em dialogar. Alguns mediandos já sinalizavam que desistiriam de participar.


Nessa conjuntura, lembrando da lição de que convém dosar a condução do caso gradativamente, perguntei à minha parceira de dupla, antes de uma reunião, se poderia usar a palavra “acordinho”, para diferenciar de desfecho total e definitivo, que apelidei de “acordão”. Ela, sempre compreensiva e gentil, apoiou cem por cento. Na reunião, aquilo soou simples e empático e dali em diante virou ícone, todo mundo se ligou em tentar o “acordinho”.


Curiosamente, depois que o “acordinho” foi alcançado, os mediandos mantiveram o uso daquela referência, no que se chamou de “implementação do acordinho”, daí prosseguindo.


Mas, e sobre cores? Bem, era preciso alocar as funções desempenhadas na empresa pelos filhos. Algumas das quais eram atrativas, outras nem tanto; umas eram pacíficas, outras nem um pouco. Lembrei-me de que, em contexto bem diverso (qualificação de status de legislações em projetos internacionais em que atuo como consultor), costumo usar as cores dos sinais de trânsito para simbolizar situações. Novamente propus à minha parceira na dupla, que topou de imediato.


Assim foi que as cores viraram legendas e assumiram papel de destaque nas falas. A “brincadeira” que surgiu foi de mover as cores no quadro e comemorar à medida em que ele ia ficando menos vermelho e mais amarelo ou verde. Não mais se precisava com frequência citar o nome das funções, e com isso se evitava evocar diretamente a respectiva carga de problemas.


Em suma, palavras e cores oferecem margem a criatividade. Elas podem ser escolhidas sem tirar os mediandos de seu vocabulário verbal ou visual habitual. Dito de outra forma, nem sempre é necessário transportar os mediandos para o jargão do mundo da mediação.


Ah, o final da história! A mediação foi interrompida quando os participantes sentiram que o clima havia se desanuviado razoavelmente e perceberam que voltara a acontecer convívio social na casa dos pais, bem como passou a haver menos entrechoques entre os filhos na empresa. Nem tudo havia sido harmonizado, mas uma boa parte fora atendida. O que faltou não estava mais tanto no campo dos filhos e sim no do pai, que teria que tomar algumas decisões. Originalmente, a iniciativa fora dos pais de buscar a mediação, agora era interrompida por eles. Tempos depois, encontro um dos filhos no aeroporto. Nós nos cumprimentamos com muita cordialidade, e ele me diz algo como: “Você não sabe da maior! Conseguimos o “acordão”!”.


*Gilberto Martins de Almeida - advogado e professor universitário, mediador e árbitro, consultor de organismos internacionais, sócio de Martins de Almeida Advogados - MDA e fundador do Instituto Direito e Tecnologia - IDTEC, membro do Conselho Consultivo de fundações, associações e empresas, palestrante e articulista, instrutor em workshops e cursos de Negociação, Mediação Empresarial, Ética, Compliance, ESG e proteção de dados pessoais.

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