Uma história de amor com a mediação

Vânia Izzo, Paula Furtado, Lais Moretta e Priscila Nobrega



Seria o primeiro encontro virtual de mediação que a equipe teria. Estávamos em plena pandemia - maio de 2020. Éramos quatro mulheres: uma mediadora e três em etapa de formação*.


Recebemos Nara e Leonardo**, que chegaram à mediação quando já se encontravam separados há cerca de um ano. Tinham interesse em formalizar a dissolução da união, organizar a convivência com a filha, na época com 2 anos e 10 meses, e realizar a divisão do patrimônio que adquiriram na vigência do casamento.


Nos primeiros encontros, ficou nítida a necessidade de conversarem sobre a educação da filha e a forma de se relacionarem com a criança, assim como a forma de se comunicarem, que há muito se encontrava cheia de arestas, não ditos e mal-estares.


Em nossas reuniões de equipe, a cada pós-encontro, nos pegávamos surpreendidas, tal era a espontaneidade com que os mediandos traziam suas questões e a fluidez no uso das palavras, momentos em que borbulhavam suas emoções (e, por que não, as nossas!). Ela tinha 23 e ele 37 anos.


Além do que ouvíamos de suas histórias, mais especificamente a maneira como traziam suas histórias, era constante, em quase todas as sessões, podemos dizer, como estavam aproveitando no dia a dia deles as conversas e as combinações que realizavam durante as reuniões de mediação. Isso sem excluir os momentos tensos e difíceis que ocorreram também.


Escolhemos esse título – Uma história de amor com a mediação -, pois ele revela o que vividamente percebíamos sobre o que Nara e Leonardo demonstravam sentir ali. No entanto, é uma história de amor em dupla mão, pelo que nos fazia sentir também como mediadoras - a beleza e o potencial de transformação que esse recurso traz para a vida das pessoas, desde que tenham com elas mesmas, obviamente, esse compromisso. Sem esse desejo genuíno, não há como avançar e conquistar novos horizontes, parece-nos.


Os mediadores aprendizes, em especial, recebem a função de realizar relatórios das sessões de mediação de que participam, a serem comentados pelo mediador supervisor; recurso importante do processo de aprendizagem. Concordamos, então, em compartilhar o relatório produzido, logo após a última reunião de mediação, por uma das mediadoras observadoras e devidamente autorizado. Esse relatório traduz, ao mesmo tempo, de maneira poética e descontraída, os sentimentos, as emoções e as percepções que afloraram na vivência desse lugar, em uma mediação; sentimentos e emoções também compartilhados, em muitos aspectos, por toda a equipe.


*Passaremos a denominar como mediadores aprendizes e mediadoras observadoras

**Os nomes e outros dados referentes aos mediandos e sua filha foram alterados.



Por Paula Furtado:


“Ao iniciar a elaboração de Sugestões de questões para o relatório de avaliação da mediação, acabei me empolgando e o texto restou nada breve, mas reflete a minha visão "romântica" do caso. Não produzi dentro do modelo normalmente proposto e, talvez, tenha que adaptar, mas feliz por compartilhar com vocês um pouco do que vi...


“NADA” breve resumo do caso: Aparentemente, confiante de que seria mais um dos muitos casos “clássicos” que envolvem: ruptura de uma relação matrimonial, guarda, convivência e alimentos. Ledo engano! Certamente, o mais encantador dos casos “clássicos” diante da beleza dos mediandos e da condução das mediadoras.


O tema repetitivo ganhou o destaque dos seus protagonistas Nara e Leonardo. Já na primeira sessão, ao final, Leonardo pediu a palavra e recitou: “...o que nós tentamos há anos (conversar), vocês fizeram em poucas horas”. Mas, mais uma vez, fomos enganados pelas nossas certezas acreditando que a primeira sessão foi um absoluto sucesso! Nada mais belo que o imprevisível.


Em seguida, entre as sessões, por telefone, Nara hesita e alega não ter interesse em permanecer na mediação. A mediadora conversa privadamente com Nara para entender suas motivações, sem ter a certeza que iria comparecer na próxima sessão, mas lá vamos nós! Nossas certezas transformadas em inseguranças para a 2ª sessão.


Mediadoras no modo super acolhedor e foi dado início à sessão... Nara entra um pouco atrasada para dar aquela emoção da incerteza e logo abre um sorriso encantador e lança sua marca registrada, novo penteado e “oiiiiiiiiiiiiiii, Leonardo.....”. A 2ª sessão teve lá suas incertezas, mas, ao fim, entendemos o que deveria ser óbvio, mas não era: Nara, apesar do belo e encantador sorriso, guardava, sim, as mágoas inerentes a todos que têm seus sonhos destruídos.


Nada como passos curtos para chegarmos ao longe: a comediadora logo valorizou os passos mínimos, mas essenciais e marcos de mudanças. Afinal, não existe acerto sem tentativa... O fracasso define novas direções já que sempre jogamos com os nossos 50%.


Enfim, a tão esperada reunião privada na 3ª sessão! Leonardo, sempre pontual, parece mais um livro aberto sem páginas numeradas e sabe o que quer e o motivo que o prende ali: “....o sorriso da Isabela (filha) é a minha terapia” ....”ela é o meu maior tesouro!” Assumidamente ciumento, por vezes passivo diante de Nara e nitidamente amoroso, Leonardo relata as suas preocupações como pai zeloso do jeito que ele sabe fazer e revela: “...cresci sozinho desde os 11 anos quando minha mãe morreu...” “Se aproxima o aniversário da Isabela e quero dar um bolinho...”. Incrível que ele se diz ignorante! Ignorante sou eu que observo pasma a sua beleza afinal. Quanta inteligência de raciocínio para alguém que cresceu sozinho! Eu que sou a ignorante, Leonardo! Respira fundo porque vem a reunião privada com Nara!


Lições de Nara do dia: “...mais fácil se magoar com a verdade do que se iludir com a mentira...”. E damos início à observação e às emoções de uma sessão que seguramos as lágrimas ao assistir as da medianda escorrendo relatando como se refez após declarar “... ele acabou com o meu sonho...”. Em seguida ressalta com orgulho a superação e suas motivações: fé, filha, família e o atual namorado. Ahhh se você soubesse, querida medianda, o prazer de estar aqui... Todavia, tenho que voltar correndo à imparcialidade ou pluriparcialidade e, na oportunidade que me foi dada, destaquei: “Leonardo nos autorizou a lhe dizer que a admira muito como mãe e diz que não poderia ser uma mãe melhor...”


Ufa! Enfim, pauta subjetiva relativamente definida, mediadoras exaustas com a intensidade e observadoras se deliciando com a beleza das ferramentas. Quanto privilégio! Este foi só o início do brilhante foco seguinte: a pauta objetiva. Ora, não se engane, talvez até mais trabalhosa para os mediadores, mas, certamente, menos emocionante... Liga a escuta ativa, aplica a ancoragem, não perde o rapport, valida o diálogo estabelecido! Não pode deixar a peteca cair! Lá vêm os números!


Ufa, sou “só” observadora! Melhor visão de todas. Invejável organização das mediadoras com os números. Dobraram o número de sessões até chegarmos à despedida e ao almejado acordo. Parecia que a gente não queria se despedir deles nem eles de nós.


A todos, o meu imenso e inesquecível muito obrigada! Meu último caso como supervisionanda foi simplesmente o melhor de todos em termos subjetivos e objetivos. Finalizo acreditando em um mundo melhor através das pessoas envolvidas neste caso, fiel à eficácia do “bom” e orientado diálogo, mais apaixonada pela mediação e, sem dúvidas, com maior clareza da ‘caixa de ferramentas’ e confiante na mediação online, tema que venho estudando e que me intriga ......... Agradeço a todos! Foi simplesmente maravilhoso!


Obs.: A mediadora supervisora não pediu outro relatório (padrão). Ficou com esse!


Escolhemos esse cartaz da Campanha de divulgação da Mediação sob a coordenação do CONIMA e ICFML para finalizar o texto, pois reflete, em total sintonia, o que quisemos expressar.



Vânia Izzo - Psicóloga e Terapeuta de Família e Casal. Mediadora da Câmara de Mediação MEDIARE e Mediadora Sênior pelo TJRJ. Exerce mediações e atividades de supervisão no CEJUSC da Capital e na Coordenação de Mediação e Práticas extrajudiciais da Defensoria Pública do RJ – COMEPE. Contato: vaniaizzo@gmail.com


Paula Furtado - Advogada, graduada em Business pela FIT NY/2008, com passagens pela NYU e Columbia University. Associada ao Instituto MEDIARE desde 2017 e Mediadora em formação, atualmente se dedica à área de contratos e negociações inserindo as ferramentas da mediação em sua prática diária. Contato: paula@ffreal.com


Lais Moretta - Fonoaudióloga, Mediadora em formação pelo MEDIARE, exercendo a prática supervisionada na Coordenação de Mediação da Defensoria Pública - Leblon/RJ. Formação em Mediação Familiar pelo IMAP. Pós-graduação em Terapia Relacional Sistêmica de Família e Casal, em curso. Contato: lmoretta67@gmail.com


Priscila Nobrega - Advogada, com LLM em Corporate Law pela NYU, Mediadora em formação pelo Mediare, exercendo a prática supervisionada na Coordenação de Mediação da Defensoria Pública - Leblon/RJ. Contato: priscilanobrega@me.com


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